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"Uma criatura sem grandes planos e atitudes, dócil apesar de silenciosa e avessa a lágrimas.

26/06/2013


Cedo, condicionaram-me a não chorar. Cedo, ouvi que chorar, afetaria o meu senso de realidade e me humilharia. Frase em que acreditei. Repeli o choro como a uma substância aniquiladora do raciocínio e da vitalidade, um veneno. Fui uma menina represa. Guardei dores e guardei lágrimas, transformando aos poucos a água do corpo em nuvens do corpo. Não aprendi a desaguar. Fiquei a voar sobre mim mesma, encharcando de tempestades a minha essência, talvez, porque me faltasse um motor ou uma vertente purificadora. Talvez porque ambos sobrassem. Sei que cresci pendurada em um varal: seca e engomada, confundindo sensibilidade com fraqueza e fraqueza com luxo, vaidade. E como temi ser uma refeição para a vaidade! Temi me tornar o seu alimento e a sua bebida, o seu coquetel, o drinque destilado das impressões da emoção sobre a carne, o gota a gota da sensibilidade tão implacável quanto os tiques e taques do tempo. A sensibilidade e o tempo, dois caprichos. Os dois sob medida para gente mais flexível e diferente, para os que sabem locomover-se em pontos fora de si e se bipartem dentro de outro alguém sem se desmanchar, os que têm outro alguém, uma primeira pessoa única, aberta e certeira em uma colisão 
(...)” (páginas 12-13) 

A Condição Indestrutível de Ter Sido – Helena Terra


20/04/2013


“Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez o seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo. Algo que existe em seu íntimo. Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar e corajosamente pôr um pé dentro dela, tapar os olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado. É muito provável que lá dentro não haja sol, nem lua, nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa. O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como osso moído dançando vertiginosamente no espaço. Imagine uma tempestade de areia desse jeito.

E você vai atravessá-la, claro. Falo da tempestade. Dessa tempestade violenta, metafísica e simbólica. Metafísica e simbólica, mas ao mesmo tempo cortante como mil navalhas, ela rasga a carne sem piedade. Muita gente verteu sangue dentro dela, e você mesmo verterá o seu. Sangue rubro e morno. E você vai apará-lo com suas próprias mãos em concha. O seu sangue e também o de outras pessoas.  

E, quando a tempestade passar, na certa lhe será difícil, entender como conseguiu atravessá-la e ainda sobreviver. Aliás, nem saberá com certeza se ela realmente passou. Uma coisa porém é certa: ao emergir do outro lado da tempestade, você já não será o mesmo de quando nela entrou. Exatamente, esse é o sentido da tempestade de areia.”

Kafka à Beira-Mar — Haruki Murakami


 
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