Impotência, opressão, injustiça.
São apenas alguns dos sentimentos que me preencheram e me transbordaram,
durante e após a leitura de 1984.
Uma distopia desesperadoramente real e atual em seu âmago, em seu Socing. Eu não tenho palavras para
descrever o quão incisivo e verdadeiro foi George
Orwell, seu senso político extremamente aguçado e já conhecido por mim
desde A Revolução dos Bichos. Ainda
assim, que choque, que soco no estômago foi ler 1984 e constatar mais semelhanças
do que diferenças com o mundo em que nós vivemos, no ano em que estamos.
O conceito de lavagem cerebral
toma outra forma aqui, algo quase literal. Se você não se encaixa ao modelo de “pessoa”
esperado pelo Partido você está doente, com defeito, e precisa ser consertado.
Pus o “pessoa” entre aspas porque a grande massa subjugada pelo Partido não é
mais do que gado. São proibidas até de terem uma personalidade, de pensar. O
idioma criado pelo Partido, a Novafala,
quer inclusive que faltem até palavras para moldar os pensamentos que se possam
ter contra o Grande Irmão (que é a imagem do Partido. Outdoors de um rosto com
um metro de largura que estão em todos os lugares olhando para você).
“Você não vê que a verdadeira finalidade da Novafala é estreitar o âmbito do pensamento? No fim teremos tornado o pensamento-crime literalmente impossível, já que não haverá palavras para expressá-lo. Todo conceito de que pudermos necessitar será expresso por apenas uma palavra, com significado rigidamente definido, e todos os seus significados subsidiários serão eliminados e esquecidos. (...) Menos e menos palavras a cada ano que passa, e a consciência com um alcance cada vez menor.” (p.68-9)
Nosso protagonista, Winston
Smith, é um desses defeituosos. Não consegue condicionar seu próprio cérebro
contra si mesmo e a favor do Partido. Sabe que aquele mundo está errado, e não
consegue entender porque ninguém é capaz de ver a lama em que estão atolados;
lama essa que pode muito bem ser traduzida por Partido.
O mundo de 1984 é dividido em
três grandes Estados: a Oceânia, a Eurásia e a Lestásia. Todos vivem em uma
guerra constante, sem começo, meio ou a perspectiva de um fim. Quando a Oceânia
resolve se aliar a Eurásia e guerrear contra a Lestásia, o Partido condiciona
todos a crer que durante todo o tempo a guerra sempre foi contra a Lestásia;
que nunca houve outro inimigo, que jamais houve um tempo em que tinha sido
diferente, que essa guerra talvez não tenha existido. Mas quando o Partido se
põe aliado da Lestásia e o inimigo da vez é a Eurásia, faz o mesmo e ainda
assim não há uma objeção por parte da população. O passado não existe.
“A história não passava de um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário” (p.54)
O Partido detém de todos os meios
para mudar o passado a fim de seus próprios objetivos, e ninguém ousa dizer que
o passado aconteceu de forma diferente do que a dita pelo Partido. E aqui entra
a total lavagem cerebral, a total drenagem de todo e qualquer resquício de
personalidade que alguém possa ter. E quando isso não funciona... Bem, o
Partido não quer nenhuma nódoa, e se você não acredita verdadeiramente no que
ele prega você não é necessário.
1984 é sensacional em todos os
sentidos. Esta não é uma resenha, tampouco quero contar sobre o livro. Para que
cada um conheça 1984, sua história, suas minúcias, é necessário que leia, e que
descubra por si mesmo. Se não for desse modo, não é de modo algum. Eu só
consigo pensar em como o ser humano pode se adaptar a situações tão extremas,
como consegue toldar a si próprio e isso nem em favor de si mesmo. Eu diria que
é impossível ler 1984 e continuar com a mesma visão de mundo, com o mesmo
pensamento diante do sistema e não se perguntar: “O que será do futuro?”
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““Como um homem pode afirmar seu poder sobre outro, Winston?”.
Winston pensou. “Fazendo-o sofrer”, respondeu.
“Exatamente. Fazendo-o sofrer. Obediência não basta. Se ele não sofrer, como você pode ter certeza de que obedecerá à sua vontade e não à dele próprio? Poder é infligir dor e humilhação. Poder é estraçalhar a mente humana e depois juntar outra vez os pedaços, dando-lhes a forma que você quiser. E então? Está começando a ver que tipo de mundo estamos criando? Exatamente o oposto das tolas utopias hedonistas imaginadas pelos velhos reformadores. Um mundo de medo e traição e tormento, um mundo em que um pisoteia o outro, um mundo que se torna mais e não menos cruel à medida que evolui. O progresso, no nosso mundo, será o progresso da dor. As velhas civilizações diziam basear-se no amor ou na justiça. A nossa se baseia no ódio. No nosso mundo as únicas emoções serão o medo, a ira, o triunfo e a autocomiseração. Tudo o mais será destruído ─ tudo. Já estamos destruindo os hábitos de pensamento que sobreviveram da época anterior à Revolução. Cortamos os vínculos entre pai e filho, entre homem e homem, e entre homem e mulher. Ninguém mais se atreve a confiar na mulher ou no filho ou no amigo. Mas no futuro já não haverá esposas ou amigos, e as crianças serão separadas das mães no momento do nascimento, assim como se tiram os ovos das galinhas. O instinto sexual será erradicado. A procriação será uma formalidade anual, como a renovação do carnê de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nossos neurologistas já estão trabalhando nisso. A única lealdade será para com o Partido. O único amor será o amor ao Grande Irmão. O único riso será o de triunfo sobre o inimigo derrotado. Não haverá arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipotentes, já não precisaremos da ciência. Não haverá distinção entre beleza e feiura. Não haverá curiosidade, nem deleite com o processo da vida. Todos os prazeres serão eliminados. Mas sempre ─ não se esqueça disto, Winston ─, sempre haverá a embriaguez do poder, crescendo constantemente e se tornando cada vez mais sutil. Sempre, a cada momento, haverá a excitação da vitória, a sensação de pisotear o inimigo indefeso. Se você quer formar uma imagem do futuro, imagine uma bota pisoteando um rosto humano ─ para sempre.”” (p. 311-2)
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