Uma sensação, que me acomete com certa frequência, é a amarga percepção de que a vida está passando por mim como se eu fosse uma presença incorpórea e desimportante. Como se essa existência estivesse passando ao meu lado, quase como se eu a pudesse tocar, mas por mais que eu me esforce na tentativa de esticar cada vez mais o braço, é inútil. Eu continuo caminhando, continuo rumo a algum lugar que desconheço, mas não faria diferença se eu, conscientemente, decidisse me manter parada, porque tudo ao meu redor segue em uma velocidade vertiginosa que, simplesmente, não consigo acompanhar. E, por mais que eu corra, sou sempre a que fica para trás. Pensamentos como esse redemoinhavam na minha cabeça mesmo antes de ter um encontro com “Um, dois e já”, da uruguaia Inés Bortagaray e só aumentaram de intensidade quando, nas primeiras páginas, me deparo com o seguinte trecho:
“Um, dois, três, quatro, catorze postes. Quinze, vinte, trinta e seis, cinquenta e cinco postes. Os postes se movem e eu estou quieta. Avançam para trás, em direção ao que já passou. Mesmo que meu pai parasse de dirigir, se ele se negasse a acelerar, freasse de repente, esses postes e essas linhas seguiriam viagem.”
Não sei se minha relação entre uma coisa e outra faça algum sentido, ou na verdade talvez eu saiba que não faz sentido algum e só precise criar interpretações que expliquem minha identificação com postes. Curioso que Um, dois e já é o tipo de livro passível de ser lido em poucos minutos e pode ser facilmente esquecido depois, mas, contra tudo que eu esperava, nesses poucos minutos – os quais tive que estender por meses – fui confrontada a extrair dessas poucas páginas mais de mim do que uma simples e curta história de ficção. Talvez esse mix de emoções já estivesse pronto para emergir e Um, dois e já se tornou o catalisador poderoso que me permitiu colocar tudo para fora.

