“Por que as pessoas têm de ser tão sós? Qual o sentido disso tudo? Milhões de pessoas neste mundo, todas ansiando, esperando que outros as satisfaçam, e contudo se isolando. Por quê? A terra foi posta aqui só para alimentar a solidão humana?”
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Minha querida Sputnik – Haruki Murakami
13/10/2013
25/04/2013
Nunca fui boa com as palavras e,
por mais que eu me esforce ao usá-las para tentar expor as diversas sensações
que me assaltam durante e depois de determinada leitura, jamais consigo
moldá-las e preenchê-las com a carga sentimental que eu, verdadeiramente,
gostaria. Trocando em miúdos, meus ajuntamentos de frases sempre me parecem
desconexos e vazios da emoção com a qual eu tento tanto impregná-los. E nunca
essa minha dificuldade de me expressar da forma que eu gostaria se faz tão
presente quanto tento falar de Haruki Murakami, e do quanto suas obras me
influenciam e significam para mim. Sinto um carinho tão especial por esse
senhor japonês que consegue, tão facilmente, conversar com seus leitores, sejam
eles quem for através de algumas folhas de papel. E é por causa dessa
capacidade de compreender o leitor, de entender suas necessidades, de fazê-lo
sentir-se pertencente a um grupo e dizer: “Ei, está tudo bem, eu te entendo. Eu
sei como você se sente. Você não está sozinho.” Talvez eu esteja exagerando.
Talvez suas obras não tenham nada a ver com isso. Talvez eu esteja tirando
leite de pedra. Talvez... Talvez... Talvez... Uma infinidade deles. Mas é o que
eu sinto. E sentimentos precisam ser externados, por mais desconexos que possam
parecer.“Sua alma se assemelha a um rio cujas águas a chuva incessante transformou em caudal. A correnteza submergiu e ocultou todas as placas de sinalização terrestre e provavelmente já as carregou para um lugar escuro. Mas a chuva, copiosa, continua a cair sobre o rio. E toda vez que você vir em noticiários tais cenas de inundação, você pensará: Realmente, assim é a minha alma.” (pág. 15)
Em
Kafka à beira-mar conhecemos Kafka Tamura, um garoto de 15 anos que não tem
nenhuma lembrança a respeito da mãe e da irmã que foram embora de casa quando
ele era ainda muito pequeno, e o deixaram aos cuidados de um pai extremamente
ausente. Sempre muito recluso e sozinho, ele decide então fugir de casa no dia
do seu décimo quinto aniversário. Inclusive se prepara para isso, tanto
fisicamente quanto psicologicamente, desde os treze anos de idade, a fim de se
ser o garoto de 15 anos mais valente do
mundo. Em paralelo e ligado ao jovem Kafka Tamura, temos um senhor muito
especial. Tendo sido vítima de um estranho e inexplicável acontecimento quando
criança, permaneceu em coma durante certo tempo e quando acordou – tão
inexplicavelmente quanto quando ficou inconsciente – tinha perdido
completamente a memória. Em consequência desse acontecimento cercado de
mistérios, Nakata perdeu sua capacidade de ler e escrever, porém, em
compensação, ganhou a habilidade de conversar com gatos. Isso mesmo: conversar
com gatos. E é entre esses dois personagens protagonistas que a história criada
por Murakami começa a se desenvolver. Pouco a pouco, tal qual felino a se
espreguiçar...
E, intercalando capítulos ora com
Kafka Tamura, ora com Nakata, ora com arquivos de classificação “ultra-secreta”
– cujos quais mostram as investigações feitas sobre o misterioso caso
envolvendo as 16 crianças, e que deixou peculiares sequelas no, então, jovem
Nakata, a fim de tentar elucidá-lo –, somos cada vez mais atraídos por essa
história. Resolver esse mistério agora se torna pessoal, de modo que parar de
ler é inadmissível! E, além de tudo isso, temos ainda a cereja do bolo: uma
profecia que está sempre a espreita. E assim vamos devorando as páginas sem nos
darmos conta. Murakami, com sua conversa, com o seu modo tão simples, e ao
mesmo tempo tão cheio de significados, de narrar, nos envolve em suas palavras
e usa, com maestria, o seu talento tão ímpar e tão cheio de sensibilidade de
contar histórias.
“Você pode fechar os olhos. Nada vai melhorar, mesmo que os feche. Não é porque você fecha os olhos que certas coisas desaparecerão. Ao contrário, muitas coisas tendem a piorar. Vivemos num mundo assim, Nakata. Abra os olhos. Fechá-los é sinal de fraqueza. Desviar o olhar é sinal de covardia. Enquanto você fecha os olhos ou tampa os ouvidos, o tempo passa do mesmo modo.” (pág. 182)
E se você pensa que tudo vai
ficando mais claro durante o passar das páginas, não poderia estar mais
enganado! Para cada sensação de “ei, estou começando a entender”, uma série de
outras questões mais estranhas chegam até a superfície. Acordamos no meio da
noite e nos pomos a observar o fantasma de uma pureza há muito perdida, e a
imaginar o que interliga tantas histórias de tantas vidas diferentes. E sempre
o constante questionamento: seria o destino algo já pré-estabelecido? E se
todas as tentativas de fugas desesperadas não passassem de atalhos que nos levaria
justo para onde não queríamos ir? “Os
homens não escolhem o seu destino, o destino é que os escolhe.”
“Sinto que mesmo as coisas que eu quis que acontecessem tinham sido programadas para acontecer muito antes de eu ter querido, entende? Como se eu estivesse apenas executando fielmente coisas que eu alguém programou para mim nalgum lugar. E que tudo é vão, que não adianta eu me empenhar ou me matar de tanto pensar. Ou melhor, que eu quanto mais me esforço, mais vou deixando de ser eu mesmo. Que estou me afastando cada vez mais do meu próprio caminho. E essa sensação é muito dolorosa.” (pág. 246)
E como obra do Murakami que é Kafka à beira-mar não poderia deixar de ser repleta de musicalidade. Neste livro, em especial, é característica intrínseca aos personagens. Mais do que sentimentos, as músicas expressam personalidade, uma das maneiras que mostram o caminho do autoconhecimento. Assim como Norwegian Wood, o título é também uma música. E o que seria a música senão um mecanismo externo de tentar preencher o audível silêncio que existe dentro de nós? E quão incrível foi Haruki Murakami ao juntar literatura e música de uma maneira única que conversa duplamente conosco.Mais e mais o mundo real vai se fundindo com um mundo imaginário, um mundo de sonhos, de lembranças... A linha que separe ambos os mundos vai ficando cada vez mais tênue, chegando ao ponto de confundir-se um com o outro. Sempre se utilizando de metáforas e usando grandes tragédias gregas como pano de fundo, Haruki Murakami uniu o mundo palpável àquele que pode apenas ser sentido, levando-os a um ponto onde não fazemos mais a distinção entre um e outro. As questões sem respostas levantadas no início de repente parecem sem sentido. Afinal, a borda do mundo não é importante, o destino não é importante. O importante é a jornada. A resposta em si se resume apenas a palavras. “É que palavras não descrevem corretamente os fatos. Porque a verdadeira resposta não pode ser dada em palavras.” Sendo assim, só nos resta por um pé à frente do outro, e enfrentar a tal tempestade de areia...
“Uma coisa porém é certa: ao emergir do outro lado da tempestade, você já não será o mesmo de quando nela entrou. Exatamente, esse é o sentido da tempestade de areia.”
20/04/2013
“Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez o seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo. Algo que existe em seu íntimo. Portanto, o único recurso que lhe resta é se conformar e corajosamente pôr um pé dentro dela, tapar os olhos e ouvidos com firmeza a fim de evitar que se encham de areia e atravessá-la passo a passo até emergir do outro lado. É muito provável que lá dentro não haja sol, nem lua, nem norte e, em determinados momentos, nem hora certa. O que há são apenas grãos de areia finos e brancos como osso moído dançando vertiginosamente no espaço. Imagine uma tempestade de areia desse jeito.
E você vai atravessá-la, claro. Falo da tempestade. Dessa tempestade violenta, metafísica e simbólica. Metafísica e simbólica, mas ao mesmo tempo cortante como mil navalhas, ela rasga a carne sem piedade. Muita gente verteu sangue dentro dela, e você mesmo verterá o seu. Sangue rubro e morno. E você vai apará-lo com suas próprias mãos em concha. O seu sangue e também o de outras pessoas.
E, quando a tempestade passar, na certa lhe será difícil, entender como conseguiu atravessá-la e ainda sobreviver. Aliás, nem saberá com certeza se ela realmente passou. Uma coisa porém é certa: ao emergir do outro lado da tempestade, você já não será o mesmo de quando nela entrou. Exatamente, esse é o sentido da tempestade de areia.”
Kafka à Beira-Mar — Haruki Murakami
26/02/2013
Soaria um tanto quanto antagônico, talvez, se eu dissesse que o livro que mais me tocou profundamente fosse, justamente, o que eu encontrei mais dificuldade em expressá-lo em palavras? Múltiplos sentimentos e diversas sensações flutuavam ao meu redor, de forma quase palpável, mas que, rapidamente, se enrodilhavam ao tentar serem postas no papel. Norwegian Wood não só conta uma história com uma extrema sensibilidade, como também reflete os recantos mais profundos do nosso coração. Uma obra com uma poética simplicidade, que retrata, com absurda delicadeza, o momento da metamorfose do jovem em adulto. Um momento que acontece de forma gradativa conforme viramos cada página, todas únicas em suas singularidades. Uma mudança que só poderia ser proporcionada por um sentimento tão forte quanto o amor:
"[...]Mas eu não vou abandoná-la de jeito nenhum, entendeu? Porque eu a amo e sou mais forte do que ela. E vou me tornar ainda mais forte do que agora. Vou amadurecer. Vou me tornar adulto. Essa é a minha obrigação. Até agora eu quis continuar vivendo sempre como se tivesse 17 ou 18 anos. Mas já não penso mais assim. Não sou mais um adolescente. Sinto-me responsável. Sabe, Kizuki, eu não sou mais o mesmo da época em que convivíamos. Acabei de fazer 20 anos. E tenho de pagar o preço para continuar vivendo."(pág. 306)
A história começa quando um Toru Watanabe, já com seus quase quarenta anos, é surpreendido ao ouvir tocar no seu vôo, a música dos Beatles (que dá nome ao livro) "Norwegian Wood". Pois, essa seria a chave mágica que abriria as mais remotas memórias de Toru; a música que o fez lembrar daquilo (e daquela) que prometeu jamais esquecer:
"- Eu gostaria que você nunca se esquecesse de mim. Você vai se lembrar para sempre que eu existi e estive aqui ao seu lado como agora?
- Claro. Vou me lembrar para sempre - respondi."(pág. 15)
Ocupamos, então, o assento do passageiro e inciamos um passeio pela vida do jovem Toru. Jovem esse que foi a última pessoa a ver o melhor amigo com vida, antes de ter cometido o suicídio por razões que ninguém conhece; jovem esse que, a partir de então, teve seu futuro moldado por uma ação que sequer foi sua. E é assim, que começamos a conhecer Toru Watanabe e, por que não?, a conhecer-nos a nós mesmos, pelos olhos de outrem, mesmo que esse outrem seja uma personagem de um livro ficcional. Iniciam-se então os casos e causos do nosso, singular em sua simplicidade, jovem Toru.
O livro é repleto de uma certa angústia, uma melancolia, e uns traços de que estamos sempre deixando algo para trás. Algo dentro de nós que vai, pouco a pouco, se perdendo no torvelinho que nós chamamos, simplesmente, de memória. Há passagens que denotam uma extrema solidão, mas uma solidão que vem de dentro, que independe de quão cercado estejamos pelo mundo exterior:
"Muito depois de o vaga-lume desaparecer, seus traços luminosos continuaram dentro de mim. Atrás de minhas pálpebras cerradas, dentro das espessas trevas, seu brilho suave continuava a vagar como uma alma perdida. Estendi várias vezes os braços em direção a essas trevas. Meus dedos nada tocaram. A pequena luz estava sempre um pouco além do meu alcance." (pág. 63)
"De qualquer forma, porém, naquele agradável início de tarde de final de setembro, todos pareciam alegres e isso me provocou uma solidão fora do comum. Senti como se eu fosse o único a destoar dessa paisagem. Pensando bem, eu me perguntava a que paisagem eu havia pertencido todos aqueles anos." (pág. 105)
Toru não é o personagem que cativa por se enquadrar em algum esteriótipo. Na verdade, eu não consigo enquadrá-lo em nenhuma categoria porque ele é, simplesmente, ele. Não existe vaidades ou afetações. Ele é o que é: melancólico, sem perspectiva de futuro, inteligente, introspectivo... Mas isso são apenas características, nada disso o define em nenhum momento. Para ser sincera, a descrição mais verdadeira a respeito desse personagem veio de uma música. Uma música cuja letra e melodia não poderiam vestir perfeitamente em alguém (sim, eu tenho sérios problemas em ver o Toru como apenas um personagem), como vestiu no, peculiarmente, cativante Watanabe, ou como vestiu perfeitamente no livro em si.
"[...]Todos tentam expressar o seu eu, e se irritam ao se descobrirem incapazes de fazer isso direito." (pág. 31)
E como se toda a sensibilidade do Toru não fosse o suficiente para quebrar-nos em pedacinhos, o autor ainda nos presenteou com outros personagens tão sensíveis quanto. Norwegian Wood é, segundo meu conceito, uma poesia em prosa. Um romance por definição; uma história de amor arquitetada pelo destino. Uma obra de arte posta em palavras num papel.
E isso é tudo que consigo exprimir em palavras, até porque Norwegian Wood, mais do que lido, deve ser sentido. É o tipo de livro que toca a alma da gente e modifica o que tocou. Não posso dizer que sou a mesma depois de ter lido ou, melhor ainda, sentido o que li. Não sou a mesma porque, de agora em diante, vou carregar sempre comigo todo o sentimento irradiado de umas poucas páginas de um livro. E para terminar, eu volto ao começo:
"- Eu gostaria que você nunca se esquecesse de mim. Você vai se lembrar para sempre que eu existi e estive aqui ao seu lado como agora?
- Claro. Vou me lembrar para sempre - respondi."(pág. 15)
P.S.: Pesquisando um pouco sobre o livro, descobri que, em 2010, Norwegian Wood teve sua adaptação cinematográfica dirigida pelo diretor franco-vietnamita Anh Hung Tran. Foi, inclusive, indicado ao Leão de Ouro, no Festival de Veneza. Aqui o trailer, e caso alguém se interesse em assistir é só fazer o download aqui (eu mesma fiz o download e já estou preparando a pipoca, o refrigerante e a caixa de lenços de papel).
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