Já escrevi e reescrevi inúmeras maneiras de começar este texto, e nenhuma me pareceu ao menos razoável. Cheguei até a desistir de tentar organizar toda a bagunça que essa leitura deixou, e procurar por um método que pudesse transcrever tudo em palavras, mas até mesmo na tarefa de desistir, eu falhei. Falhei e voltei atrás porque passaram-se dias e Viver não me deixou, fixou-se nos meus pensamentos e me forçou a escrever algo aos trancos e barrancos, não me deixando nem mesmo a escolha de escolher fugir. Agora, especificamente, vejo o quanto o título grita. Viver
é mais do que uma palavra, mais do que um conjunto qualquer de letras, viver é
a essência. Num primeiro momento considerei o título como mais uma das ironias
de Yu Hua, mas agora... Agora vejo que nenhuma outra palavra, mesmo que de
significado parecido, conseguiria se equiparar a grandeza de, veja que
simples, viver. É tremendo. E triste. Uma história que abrange meio século, que narra uma vida, que passa até mesmo pelas transformações políticas da China contemporânea.
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Viver – Yu Hua
13/06/2014
Ultimamente venho pensando se as coisas realmente acontecem por algum motivo ou se todo o desenrolar da vida seja apenas uma sequência de acasos. Logicamente não cheguei a conclusão alguma. Viver per se seria algo mais simples, ao menos teoricamente. Ao mesmo tempo que existir apenas e unicamente só por existir, sem que não haja uma cortina por trás disso tudo, me parece inconcebível. Esse questionamento, que não vai dar em lugar algum, surgiu depois de uma discussão a respeito do poema “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa (nunca um sobrenome coube tão bem). A poesia de Caeiro é desconcertantemente simples. Ele diz o que diz, e isso quebrou minhas pernas nessa busca por um provável significado oculto nas coisas. Mas Caeiro nada tem a ver com Philip Roth e Indignação. Talvez uma coincidência tenha me levado à Indignação, ou talvez Indignação tenha me escolhido justo agora, neste momento da minha vida, com a precisão de um bisturi. 20/07/2013
Impotência, opressão, injustiça.
São apenas alguns dos sentimentos que me preencheram e me transbordaram,
durante e após a leitura de 1984.
Uma distopia desesperadoramente real e atual em seu âmago, em seu Socing. Eu não tenho palavras para
descrever o quão incisivo e verdadeiro foi George
Orwell, seu senso político extremamente aguçado e já conhecido por mim
desde A Revolução dos Bichos. Ainda
assim, que choque, que soco no estômago foi ler 1984 e constatar mais semelhanças
do que diferenças com o mundo em que nós vivemos, no ano em que estamos.
O conceito de lavagem cerebral
toma outra forma aqui, algo quase literal. Se você não se encaixa ao modelo de “pessoa”
esperado pelo Partido você está doente, com defeito, e precisa ser consertado.
Pus o “pessoa” entre aspas porque a grande massa subjugada pelo Partido não é
mais do que gado. São proibidas até de terem uma personalidade, de pensar. O
idioma criado pelo Partido, a Novafala,
quer inclusive que faltem até palavras para moldar os pensamentos que se possam
ter contra o Grande Irmão (que é a imagem do Partido. Outdoors de um rosto com
um metro de largura que estão em todos os lugares olhando para você).
“Você não vê que a verdadeira finalidade da Novafala é estreitar o âmbito do pensamento? No fim teremos tornado o pensamento-crime literalmente impossível, já que não haverá palavras para expressá-lo. Todo conceito de que pudermos necessitar será expresso por apenas uma palavra, com significado rigidamente definido, e todos os seus significados subsidiários serão eliminados e esquecidos. (...) Menos e menos palavras a cada ano que passa, e a consciência com um alcance cada vez menor.” (p.68-9)
Nosso protagonista, Winston
Smith, é um desses defeituosos. Não consegue condicionar seu próprio cérebro
contra si mesmo e a favor do Partido. Sabe que aquele mundo está errado, e não
consegue entender porque ninguém é capaz de ver a lama em que estão atolados;
lama essa que pode muito bem ser traduzida por Partido.
O mundo de 1984 é dividido em
três grandes Estados: a Oceânia, a Eurásia e a Lestásia. Todos vivem em uma
guerra constante, sem começo, meio ou a perspectiva de um fim. Quando a Oceânia
resolve se aliar a Eurásia e guerrear contra a Lestásia, o Partido condiciona
todos a crer que durante todo o tempo a guerra sempre foi contra a Lestásia;
que nunca houve outro inimigo, que jamais houve um tempo em que tinha sido
diferente, que essa guerra talvez não tenha existido. Mas quando o Partido se
põe aliado da Lestásia e o inimigo da vez é a Eurásia, faz o mesmo e ainda
assim não há uma objeção por parte da população. O passado não existe.
“A história não passava de um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário” (p.54)
O Partido detém de todos os meios
para mudar o passado a fim de seus próprios objetivos, e ninguém ousa dizer que
o passado aconteceu de forma diferente do que a dita pelo Partido. E aqui entra
a total lavagem cerebral, a total drenagem de todo e qualquer resquício de
personalidade que alguém possa ter. E quando isso não funciona... Bem, o
Partido não quer nenhuma nódoa, e se você não acredita verdadeiramente no que
ele prega você não é necessário.
1984 é sensacional em todos os
sentidos. Esta não é uma resenha, tampouco quero contar sobre o livro. Para que
cada um conheça 1984, sua história, suas minúcias, é necessário que leia, e que
descubra por si mesmo. Se não for desse modo, não é de modo algum. Eu só
consigo pensar em como o ser humano pode se adaptar a situações tão extremas,
como consegue toldar a si próprio e isso nem em favor de si mesmo. Eu diria que
é impossível ler 1984 e continuar com a mesma visão de mundo, com o mesmo
pensamento diante do sistema e não se perguntar: “O que será do futuro?”
*****
““Como um homem pode afirmar seu poder sobre outro, Winston?”.
Winston pensou. “Fazendo-o sofrer”, respondeu.
“Exatamente. Fazendo-o sofrer. Obediência não basta. Se ele não sofrer, como você pode ter certeza de que obedecerá à sua vontade e não à dele próprio? Poder é infligir dor e humilhação. Poder é estraçalhar a mente humana e depois juntar outra vez os pedaços, dando-lhes a forma que você quiser. E então? Está começando a ver que tipo de mundo estamos criando? Exatamente o oposto das tolas utopias hedonistas imaginadas pelos velhos reformadores. Um mundo de medo e traição e tormento, um mundo em que um pisoteia o outro, um mundo que se torna mais e não menos cruel à medida que evolui. O progresso, no nosso mundo, será o progresso da dor. As velhas civilizações diziam basear-se no amor ou na justiça. A nossa se baseia no ódio. No nosso mundo as únicas emoções serão o medo, a ira, o triunfo e a autocomiseração. Tudo o mais será destruído ─ tudo. Já estamos destruindo os hábitos de pensamento que sobreviveram da época anterior à Revolução. Cortamos os vínculos entre pai e filho, entre homem e homem, e entre homem e mulher. Ninguém mais se atreve a confiar na mulher ou no filho ou no amigo. Mas no futuro já não haverá esposas ou amigos, e as crianças serão separadas das mães no momento do nascimento, assim como se tiram os ovos das galinhas. O instinto sexual será erradicado. A procriação será uma formalidade anual, como a renovação do carnê de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nossos neurologistas já estão trabalhando nisso. A única lealdade será para com o Partido. O único amor será o amor ao Grande Irmão. O único riso será o de triunfo sobre o inimigo derrotado. Não haverá arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipotentes, já não precisaremos da ciência. Não haverá distinção entre beleza e feiura. Não haverá curiosidade, nem deleite com o processo da vida. Todos os prazeres serão eliminados. Mas sempre ─ não se esqueça disto, Winston ─, sempre haverá a embriaguez do poder, crescendo constantemente e se tornando cada vez mais sutil. Sempre, a cada momento, haverá a excitação da vitória, a sensação de pisotear o inimigo indefeso. Se você quer formar uma imagem do futuro, imagine uma bota pisoteando um rosto humano ─ para sempre.”” (p. 311-2)
*****
09/06/2013
Eu não pretendia escrever alguma coisa sobre A humilhação, do autor norte-americano Philip Roth, mas resolvi rabiscar algumas poucas palavras a fim de explicar, mais à mim mesma do que aos outros, o porquê de ter me encontrado tão confusa ao classificá-lo. O fato é: eu esperava mais. Bem mais... Não trato aqui da escrita e do talento inegável de Roth, falo da história meso que, verdade seja dita, não me agradou nem um pouco.
O livro trata da derrocada do ator de teatro sessentão Simon Axler. O protagonista, muito famoso outrora, sem motivo aparente, simplesmente perde a capacidade de atuar. Ponto. Simplesmente acabou-se o talento do cara. Quando sobe aos palcos, não sabe mais o que fazer e se torna um completo fiasco. A partir daí, ele entra em parafuso e o caminho daqui para frente é uma descida. Íngreme.
"Quando você representa o papel de uma pessoa que está entrando em parafuso, a coisa tem organização e ordem; quando você observa a si próprio entrando em parafuso, desempenhando o papel de sua própria queda, aí a história é outra, uma história de terror e medo."
"O único papel que conseguia desempenhar era o de alguém que desempenha um papel."
Importante: empatia. Embora Simon fosse bastante eloquente ao passar seu sofrimento, sua depressão, seu estado deplorável... Tudo isso em decorrência da perda total do talento, não consegui sentir o mínimo de compaixão pelo personagem. Não foi algo triste, não foi algo desesperador, na verdade, foi algo enfadonho. Tudo bem que os fluxos de consciência são extremamente interessantes, mas acabam perdendo o brilho ao serem usados por um personagem um tanto superficial. Talvez essa tenha sido a intenção do autor, mas o fato é que não me agradou.
Bom, ele resolve se internar por uns dias numa clínica psiquiátrica. O que o Axler chamava de depressão, eu chamo de frescura. E uma das grandes. Até o problema de não conseguir mais atuar me parecia algo feito de propósito. Como se ele estivesse representando o papel de alguém que supostamente tem um problema. Quer problema de verdade? A coleguinha que ele fez na clínica pode exemplificar muito bem o que é ter problemas. Na minha interpretação, Axler tinha apenas o orgulho ferido e o tratava como se fosse algo de suma importância.
É um livro pequeno, dividido em três capítulos, e que apesar de tudo é rapidíssimo de se ler. Logo no primeiro capítulo, Simon é abandonado pela mulher e se interna na clínica. Nos segundo, a vida do cara dá uma melhorada. Desenvolve um relacionamento no mínimo estranho com a filha de um casal de antigos amigos, vinte e cinco anos mais nova que ele. Um verdadeiro mar de rosas se não fosse pelo fato da fofa ser lésbica – melhor exemplo de casal vinte impossível. No terceiro e último, temos o tal clímax, um final previsível que não é de todo ruim. O que também não quer dizer que seja bom.
No mais, é uma obra que vale pela escrita do Roth – que é bom mesmo quando é ruim – e pela capa lindíssima, mas não pela história que não funcionou comigo. Não houve um diálogo entre nós. Lógico que continuarei a ler Philip Roth, mas, para mim, chega de A humilhação.
28/05/2013
Pegando carona na propaganda que exagera em tratar Jovens de um novo tempo, despertai!, de Kenzaburo Oe, como um "livro de definições", resolvi então tratar de defini-lo. E vou fazê-lo em duas palavras: puro sentimento. É o que ele é. E nenhuma definição menos abstrata poderia se mostrar correta. Este é um livro que desperta um leque de emoções diferentes que cavam igualmente fundo na alma da gente.
Num misto de autobiografia, conto e ensaio, Oe se põe narrador/protagonista em sua própria história. Ao voltar de uma viagem, a trabalho, especialmente longa, fica sabendo que seu primogênito excepcional Iiyo - cujo nome verdadeiro é Hikari - teve uma crise e se encontra violento, provocando no resto da família uma sensação de impotência e até de medo em relação ao filho especial. Retornando ao seio familiar e ao seu primogênito, Oe "retoma" o projeto de escrever um "livro de definições de todas as coisas do mundo" para o filho.
Digo "retoma", entre aspas, porque ele nunca de fato começou a escrever tal livro, como ele mesmo diz. Ele apenas acalentou a ideia, a tateou aqui e acolá, mas sempre superficialmente. Por isso, logo no início, comentei que toda a propaganda exagerava em focar apenas numa característica que é totalmente secundária na história que o livro conta.
Dito isso, é essa crise grave sofrida pelo Iiyo - vou tratá-lo pelo nome que o Oe usou - que o motivou a procurar uma maior aproximação com o filho. Uma forma forma que o pai Kenzaburo Oe usou para poder penetrar a couraça que Iiyo construiu ao redor de si; uma forma de conhecer seus sentimentos, de conhecer a dor que o filho sentia - e não falo aqui apenas de dor física - e que com um olhar conseguia expressá-la em sua totalidade mais do que quaisquer palavras poderiam fazer. E é essa torrente invisível de sentimentos que nos faz submergir num estado de emoção pura.
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