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Memórias do Subsolo – Fiódor Dostoiévski

12/03/2017

Dostoiévski me adoece. Não sei o que acontece comigo ou porquê, mas ler Dostoiévski me afeta fisicamente. Até mesmo uma novela é capaz de me prostrar, e foi exatamente isso que Memórias do Subsolo fez comigo. Derrubou-me. E aqui corroboro com uma das primeiras ideias do livro, a do sentir prazer na dor. Nenhum outro conseguiria se alicerçar tão firmemente entre paradoxos e permanecer caminhando a passos duros no abismo. Dostoiévski é o meu abismo, a atração é irresistível e a cada investida meu reflexo torna-se menos opaco. Em algum momento ele vai me olhar de volta.

“Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável”. Assim inicia-se Memórias do Subsolo. Num monólogo que vai se desdobrar em mil e um questionamentos, que vai se desenvolver e vai quebrar-se em outros tantos pensamentos filosóficos, vai se afirmar e se contradizer. Esse começo me lembra muito o movimento das ondas, às vezes mais calmas, apenas tocando as pedras, cobrindo-as como um lençol, então retrocedem e avançam mais uma vez com uma intensidade completamente diferente e chocam-se com seja lá o que estiver no seu caminho. Repetindo, sobretudo, como o homem é caprichoso. Que por mais que se pavimentem caminhos sensatos e racionais por onde possamos transitar sem maiores extravagâncias não é essa racionalidade coletiva e inexpressiva que nos excita, que nos instiga. Ao contrário até. Precisamos apenas de uma vontade independente, que vá mesmo de encontro a tudo quanto for sensato e racional. Um capricho.

Crime e Castigo – Fiódor Dostoiévski

13/07/2013

Antes de tudo, gostaria de dizer que nunca, em toda minha vida como leitora, fui tão mentalmente sugada por um livro como o fui por Crime e Castigo. Mesmo agora, depois do término da leitura, anda me sinto mentalmente cansada por ter mergulhado tão intensamente na montanha-russa sentimental que é Raskólnikov. Fiódor Dostoiévski alcançou outro nível com Crime e Castigo. A “loucura” de Raskólnikov, que foi não menos do que brilhantemente narrada, eleva ainda mais a literatura russa, já consagrada por seus autores sempre sensacionais em retratar os sentimentos humanos mais reais, mais crus, mesmo que sejam personagens fictícios.

Crime e Castigo não é um livro fácil de ser lido, muito menos de uma leitura constante. Dostoiévski criou uma obra densa, visceral, que em diversos momentos parece mais um furacão. Raskólnikov por si assemelha-se mais a um trem desgovernado que às vezes freia subitamente, para recomeçar o percurso rumo a lugar nenhum ainda mais descontrolado. Duvido muito que alguém não saia de Crime e Castigo com a base de si mesmo um pouco (ou muito) abalada; que Dostoiévski não balance as estruturas do leitor seja ele quem for. Sente-se uma grande angústia não só por Ródia, como por todos aqueles personagens que, em menor ou maior grau, tem uma parte da sua alma desnudada e esmiuçada por Dostoiévski. 

Mas vamos aos fatos: Rodion Românovitch Raskólnikov, o protagonista transtornado desta história, talvez por dinheiro ou talvez como uma forma de provar a si mesmo de que é um homem superior aos demais, resolve-se por matar uma velha usurária. Velha essa que, segundo o próprio Raskólnikov, não passava de um piolho e que sua morte foi mais um bem do que um crime. Entretanto, a irmã da velha aparece na hora errada, no lugar errado e acaba por presenciar o crime, o que leva Rodion a cometer o segundo assassinato: acaba por matar também a irmã da velha usurária. Esse então foi o crime. A partir de então, vem o castigo. Imposto de si, para si pelo próprio Raslkólnikov! E não pense que é por arrependimento que ele se perde num frenesi durante toda a história, mas sim pelo fato de não conseguir continuar com sua vida como se nada houvesse acontecido; de não ser um dos homens extraordinários, tal qual Napoleão Bonaparte [frequentemente citado por Raskólnikov como um homem que não se importaria com ninharias (como matar uma velha usurária) para atingir os seus objetivos].

E mesmo assim Ródia sofre, e como sofre! E nos leva a sofrer junto com ele, a se angustiar junto com ele. Nós os seguimos pelas ruas e becos e tabernas e cubículos de São Petersburgo sempre, e cada vez mais, com o coração apertado. Sem nos atrevermos a adivinhar o próximo passo, o que virá a seguir... A leitura de Crime e Castigo me durou mais de um mês, um tempo relativamente longo para um livro de pouco mais de 500 páginas, e mesmo assim me teria custado muito mais graças ao enorme esgotamento que ele me causou, não fosse a minha vontade por acabar com o sofrimento; o de Ródia e, por tabela, o meu.

O livro é permeado de diálogos não menos que sensacionais. A sequência do diálogo entre Porfiri e Ródia, durante seu primeiro encontro, no qual discutem o artigo de Raskólnikov (artigo esse no qual Ródia divide os homens em ordinários e extraordinários. Os primeiros são apenas os seguidores da ordem, não tem o viço para serem mais do que a massa mediana da população; já os segundos, são a nata, àqueles a quem a lei não importa, porque eles fazem sua própria lei, não necessitam seguir aquilo que desprezam, pois são superiores a tudo isso), é absurdo, no melhor sentido que a palavra pode empregar, é afiado como uma adaga. E uso apenas esse diálogo como um exemplo, até porque o que não falta a Crime e Castigo são essas discussões longas que tem o poder de fazer o leitor não desviar os olhos das palavras nem no virar das páginas.

Crime e Castigo é esmagador. Tem a força de uma machadada desferida por um homem que considera a si mesmo como extraordinário. E o é. Porque quanto mais conhecemos o íntimo e as lutas ferrenhas no interior de Raskólnikov não conseguimos não perceber, apesar de tudo, sua retidão, seu senso de justiça, seja ele distorcido ou não. Eu fui, estou e continuarei sendo constantemente sendo esmagada pela força de Dostoiévski, independentemente do incômodo que sua história causa, o final é extremamente significativo, sendo até muito bonito depois de todo o sofrimento sentido. É muito difícil não levar Crime e Castigo consigo depois de ter sido esmagada por Fiódor Dostoiévski.

Ser ou parecer ser: eis a questão.

14/05/2013


“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” E este é o mais célebre início de uma das maiores histórias de todos os tempos. Considerado um colosso da literatura mundial, e obra-prima do autor russo Liev Tolstói, Anna Kariênina nada mais é do que uma obra de tamanho tal que, por mais que eu queira, jamais conseguiria exprimir sua magnitude em palavras que, por sua vez, só conseguiriam demonstrar uma ínfima parte de algo que é infinitamente majestoso per se. Ambientado entre – à época – os dois grandes centros da Rússia, Moscou e São Petersburgo, este grande livro – grande em todos os aspectos – acompanha a história dos dois protagonistas Anna e Liévin, que entre toda a extensa narrativa encontram-se apenas uma vez. Porém, não são menos ligados do que se fossem postos juntos em todas as páginas.

O tradutor Rubens Figueiredo conta, em sua apresentação, como a história de Anna começou a nascer na mente de Tolstói. Para o bem ou para o mal, já sabemos o que acontecerá ao fim do livro, mas é o caminho até lá que verdadeiramente importa. É o poder de Liev Tolstói em nos inserir na mente e nos desejos e nos mais profundos sentimentos de seus personagens, que reside o brilho incandescente de Anna Kariênina.

Esta é, trocando em miúdos, uma história sobre aparências. Trata sobre aquilo que se passa no íntimo de cada um e de como isso é externado, quando externado. Estamos sempre a par dos sentimentos das personagens e do que essas mesmas personagens aparentam ser. O dilema interno de cada um em esconder o máximo possível aquilo que tem de mais verdadeiro dentro de si. Escondendo até de si mesmo, como é o caso de Kariênin. É uma história de como a má interpretação do outro, a leitura errada da personalidade e dos possíveis pensamentos do outro pode acarretar tanta infelicidade, tanta tristeza, tanto sofrimento...

"[...] Qualquer pessoa que conheça até os mínimos pormenores toda a complexidade dessas condições que a cercam é levada a supor, de modo involuntário, que a complexidade dessas condições e a dificuldade para encontrar uma solução constituem uma peculiaridade pessoal e fortuita, apenas sua, e nem de longe imagina que os outros estejam também cercados pela complexidade de suas próprias condições pessoais."

Anna Arcádievna, uma dama da alta sociedade Petersburguesa, casada com Kariênin, e mãe de Serioja, resolve viajar até Moscou a fim de ajudar a salvar o casamento do irmão, Stiepan Arcáditch. Stiva, como é carinhosamente chamado - que não é lá um belo exemplo de espécime muito apegado a fidelidade -, viu sua comum vida doméstica ser posta de ponta-cabeça ao ser descoberta, por sua esposa Dolly, uma de suas puladas de cerca. Chegando à Moscou com a melhor das intenções, o destino resolveu agir e trazer ao seu encontro uma alma, que a partir de então, se tornou parte dela própria. O destino trouxe conde Vrónski, e foi exatamente neste momento que o trem começou a sair dos trilhos...

Anna e Vrónski, da adaptação cinematográfica de 2012.
Presa à um casamento ao qual era indiferente e acomodada - infeliz talvez, mas não gosto do significado que a palavra implica. Lembrem-se sempre que essa é uma história sobre aparências. Apesar de ela mesma ter se dito infeliz no casamento com Kariênin, aos meus olhos não existia essa infelicidade toda que ela tanto clamava, mas que só era infelicidade por ser sempre comparada  à "felicidade" de uma relação extra-conjugal cheia de novidades e cheia de "amor" -, encontra em Vrónski tudo aquilo que ansiava, mesmo antes de se dar conta disso.

“– Eu, infeliz? – disse ela, aproximando-se dele e fitando-o com um extasiado sorriso de amor. – Eu sou como uma pessoa faminta a quem deram o que comer. Talvez essa pessoa esteja com frio, e suas roupas estejam rasgadas, talvez sinta vergonha, mas infeliz não é. Eu, infeliz? Não, aqui está a minha felicidade...”

E como esta história é uma espécie de teia magistralmente trançada na qual todos os personagens estão, invariavelmente de alguma forma, interligados, temos uma das grandes cabeças desta obra, Konstantin Liévin., um aristocrata que vive no campo e dele não abre mão jamais. Liévin, que chegou em Moscou quase ao mesmo tempo que Anna, o foi com o propósito de pedir a bela Kitty em casamento. Kitty – que é a irmã mais nova de Dolly e cunhada de Stiva, este que é o mais próximo de melhor amigo para Liévin –, por sua vez, é apaixonada e sonha em se casar com Vrónski, e este, bem, todos nós sabemos muito bem por quem ele caiu de amores...

Mas deixemos de lado toda essa dança das cadeiras e foquemo-nos única e exclusivamente apenas em Liévin, ao menos por um momento. Entre todos os personagens, Liévin é o mais transparente e o mais firme. Aliás, não acredito que firme seja a palavra correta, mas por firme quero dizer que Konstantin é o personagem mais reto (?). – Ok. A explicação ficou ainda mais confusa, mas tentemos de novo porque não sou leitora de desistir fácil! – Mais uma vez, por reto quero dizer que as nuances de sua personalidade são facilmente percebidas, graças ao poder de Tolstói em dar tamanha emoção às suas criações. Nós, os leitores, temos total acesso ao que se passa nas profundezas do seu coração, no centro da sua alma. Assim como os outros personagens também o percebem em menor ou maior grau, que é o caso de Stiva. À princípio, aparenta ser um "nada demais", mas no decorrer da leitura Liévin se torna o personagem mais nítido. Percebemos que tudo o que ele é, tudo o que faz parte dele, só poderia pertencer à ele e à ninguém mais e é, justamente essa característica, que o faz tão singular entre tantos personagens.


Liévin, também da adaptação de 2012. 
“– Aí está, veja só – disse Stiepan Arcáditch, você é um homem muito íntegro. É a sua qualidade e o seu defeito. Tem um caráter íntegro e quer que toda a vida seja formada de fenômenos íntegros, mas isso não acontece. Você despreza a atividade do serviço público porque deseja que o trabalho sempre corresponda a um fim, e isso não acontece. Quer também que a atividade de um homem sempre tenha um fim, que o amor e a vida em família sejam sempre uma coisa só. E isso não acontece. Toda a diversidade, todo o encanto, toda a beleza da vida é feita de sombras e de luz.”

E quem seria o extremo oposto de Liévin, senão Vrónski? O apaixonado Vrónski... Não digo que seu amor não fosse verdadeiro, mas, certamente, dificilmente foi da maneira que tentava tanto mostrá-lo. Ele se apaixonou por uma Anna que existia apenas na sua imaginação. A verdadeira Anna, mesmo dizendo o contrário, não significava para ele mais do que uma versão piorada do que tinha sido um dia. Mas, claro, para todos os efeitos externos o tal amor permanecia intacto. 

Kariênin, de adivinhem qual adaptação?
E a própria Anna, apesar de encontrar, cada vez mais frequentes, os sinais de que a devoção de Vrónski estava arrefecendo, preferia não vê-los. Ignora sua existência, e culpa apenas o marido por suas desgraças. Pobre Kariênin... Aos meus olhos, talvez o que mais sofreu nessa história toda. Sempre sufocando seus sentimentos, suas inseguranças e nunca alterando suas feições e atitudes frias diante de tudo que acontecia. Mas esta, não esqueçam, é uma história de aparências. Ele amava a esposa, mas nunca se permitia externar seus verdadeiros sentimentos. E Anna jamais o enxergou como ele era verdadeiramente, e sempre o culpava e condenava por sua infelicidade, chamando-o de boneco e de máquina, clamando sempre o quanto conhecia o marido. Pobre Anna, tão cega e tão injusta...

“– Sim, a senhora só pensa em si, mas o sofrimento do homem que foi seu marido não lhe interessa. Para a senhora, não importa que toda a vida dele desmorone, que ele muito se afi... se afle... se aflija.”

Mas todas as minhas opiniões e julgamentos provém da narração estupenda de Liev Tolstói. Até porque, convenhamos, Anna Kariênina poderia muito bem ser uma história de infidelidade qualquer, não fosse o dom desse senhor russo em passar-nos os sentimentos tão humanos, tão reais que estavam por trás de todas as ações se seus personagens. E, esse sim, é o grande mérito e onde reside a grande qualidade da obra.

Anna Kariênina é uma obra densa e absolutamente completa. Não há um assunto que não seja aqui tratado e debatido, sejam eles: política, economia, religião, filosofia, arte etc... Ao fim, e ao cabo, tudo que gostaríamos é que tivesse muito mais páginas a fim de não nos separarmos nem tão cedo deste, já dito anteriormente, colosso da literatura mundial.

P.S.: Aproveitando o tema deste mês para o DL 2013 (livros citados em filmes), uso essa resenha como minha participação, já que Anna Karenina foi citado no filme A Insustentável Leveza do Ser.
 
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