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A Condição Indestrutível de Ter Sido – Helena Terra

01/08/2013

A Condição Indestrutível de Ter Sido. Que título incrível, não? Como costumam dizer por aí: poético. Aliás, o livro inteiro é permeado pela linguagem poética de Helena Terra; uma linguagem destituída daquele romantismo utópico tão comum. Talvez por ir contra a corrente do amor romântico da forma como é comumente mostrada – uma força arrebatadora que tudo suporta, que se mantém sempre firme e inabalável ante a vida e suas dificuldades – que A Condição Indestrutível de Ter Sido foi surpreendentemente tão bom.

Confesso que fui imediatamente fisgada pelo título e, afinal, como poderia ser diferente? A Condição Indestrutível de Ter Sido. Perdi as contas de quantas vezes já o repeti e então repeti mais uma vez, mas o que posso fazer se ele me soa sempre tão bonito e tão triste?


A protagonista desta história ama um alguém, o Mauro, o Mau, e ao se jogar sem reservas nesse amor o expõe de maneira tão real. Mostra que o que acontece por dentro de um ser já alquebrado ao se apaixonar perdidamente por outro, não tem nada da elevação da alma que (tentam) nos fazer acreditar. A coisa real é bem diferente e a desilusão é ainda mais incisiva. Não queria usar do clichê “em um relacionamento um sempre gosta mais...”, mas em partes acho que se enquadraria aqui. Em partes porque esse relacionamento já estava fadado ao fracasso, mas a nossa protagonista cuidava e regava suas esperanças de um futuro em comum com o Mau. Era “a que gostava mais”. Ou mais propriamente a única.

“Criei para nós um céu de palavras e o habitei com uma atmosfera carregada de esperanças e de verbos. A esperança e o verbo eram o meu ar, as minhas nuvens, o meu amor.” (p. 21)
“Eu, sempre tão controlada, metódica, cândida; eu, sempre tão deformada, disforme, naufragada em covardia, havia rompido comigo mesma e ido em frente, me movido dentro de mim para alcançá-lo. E havia sido em vão.” (p. 28)

A Condição Indestrutível de Ter Sido trata da desilusão, da tristeza pungente da personagem que se vê sozinha e abandonada num saguão de aeroporto, que mesmo “defeituosa” e alquebrada se entregou a um amor, mesmo que o ter-se entregue por inteiro a outro alguém a tenha destruído. Ela não soube “locomover-se para fora de si e se bipartir dentro de outro alguém sem se desmanchar”.

Mas, afinal, será que alguém é capaz de bipartir-se dentro de outro alguém e, ainda assim, manter a outra parte ilesa? Certamente eu não conseguiria, e não conheço ninguém que tenha sido capaz de realizar tamanha “proeza”. Renato Russo dizia: “Se o amor é verdadeiro não existe sofrimento.” Francamente, eu não poderia discordar mais. Essa visão de amor definitivamente não é a minha. Eu acredito mais na vontade de “gritar o quanto doía a indestrutível condição de ter sido por alguém um amor perdido”.

"Uma criatura sem grandes planos e atitudes, dócil apesar de silenciosa e avessa a lágrimas.

26/06/2013


Cedo, condicionaram-me a não chorar. Cedo, ouvi que chorar, afetaria o meu senso de realidade e me humilharia. Frase em que acreditei. Repeli o choro como a uma substância aniquiladora do raciocínio e da vitalidade, um veneno. Fui uma menina represa. Guardei dores e guardei lágrimas, transformando aos poucos a água do corpo em nuvens do corpo. Não aprendi a desaguar. Fiquei a voar sobre mim mesma, encharcando de tempestades a minha essência, talvez, porque me faltasse um motor ou uma vertente purificadora. Talvez porque ambos sobrassem. Sei que cresci pendurada em um varal: seca e engomada, confundindo sensibilidade com fraqueza e fraqueza com luxo, vaidade. E como temi ser uma refeição para a vaidade! Temi me tornar o seu alimento e a sua bebida, o seu coquetel, o drinque destilado das impressões da emoção sobre a carne, o gota a gota da sensibilidade tão implacável quanto os tiques e taques do tempo. A sensibilidade e o tempo, dois caprichos. Os dois sob medida para gente mais flexível e diferente, para os que sabem locomover-se em pontos fora de si e se bipartem dentro de outro alguém sem se desmanchar, os que têm outro alguém, uma primeira pessoa única, aberta e certeira em uma colisão 
(...)” (páginas 12-13) 

A Condição Indestrutível de Ter Sido – Helena Terra


 
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