Memórias do Subsolo – Fiódor Dostoiévski

12/03/2017

Dostoiévski me adoece. Não sei o que acontece comigo ou porquê, mas ler Dostoiévski me afeta fisicamente. Até mesmo uma novela é capaz de me prostrar, e foi exatamente isso que Memórias do Subsolo fez comigo. Derrubou-me. E aqui corroboro com uma das primeiras ideias do livro, a do sentir prazer na dor. Nenhum outro conseguiria se alicerçar tão firmemente entre paradoxos e permanecer caminhando a passos duros no abismo. Dostoiévski é o meu abismo, a atração é irresistível e a cada investida meu reflexo torna-se menos opaco. Em algum momento ele vai me olhar de volta.

“Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável”. Assim inicia-se Memórias do Subsolo. Num monólogo que vai se desdobrar em mil e um questionamentos, que vai se desenvolver e vai quebrar-se em outros tantos pensamentos filosóficos, vai se afirmar e se contradizer. Esse começo me lembra muito o movimento das ondas, às vezes mais calmas, apenas tocando as pedras, cobrindo-as como um lençol, então retrocedem e avançam mais uma vez com uma intensidade completamente diferente e chocam-se com seja lá o que estiver no seu caminho. Repetindo, sobretudo, como o homem é caprichoso. Que por mais que se pavimentem caminhos sensatos e racionais por onde possamos transitar sem maiores extravagâncias não é essa racionalidade coletiva e inexpressiva que nos excita, que nos instiga. Ao contrário até. Precisamos apenas de uma vontade independente, que vá mesmo de encontro a tudo quanto for sensato e racional. Um capricho.


O narrador segue devaneando, lembrando de passagens da sua vida, transcrevendo com detalhes sentimentos que ninguém gostaria de admitir que sente. Por vezes se coloca acima dos demais para em seguida tratar a si mesmo, e aos outros, com desprezo, se apega a pequenezas e adoece vítima das ilusões transtornadas que vai criando na sua constante solidão. E é tão humano. Um narrador que escancara, sem artifícios, uma série de defeitos que cotidianamente tentamos esconder e soterrar sob toneladas de delicadezas e gentilezas vazias. O subsolo vai além e torna-se um estado na vida desse narrador, algo que já se arraigou em sua alma, uma força que o prende sempre em um nível abaixo do chão.

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Segundo o blogger, a última atualização que fiz neste rascunho foi em 05/03/2016, mais de um ano atrás, quando a vida dessa que vos escreve não poderia ser mais diferente do que é agora. E por mais que eu tenha dado uma pausa nessa leitura especificamente, resolvi usá-la como parâmetro para as mudanças que aconteceram durante esse ano que passou. Usei a literatura como porto seguro, como ponto de apoio, para que eu pudesse ter algo em que me segurar e não deixar que as ondas que vieram me afogassem. Poucos foram os momentos de calmaria durante esse tempo e ler hoje as palavras que escrevi quando era completamente outra pessoa só expandem uma perspectiva que julgava perdida. Retomar Memórias do Subsolo, mais do que retomar uma leitura pausada foi retomar uma parte de mim que, fico feliz em perceber agora, não foi perdida nem afundada. 
--------------------------------------------- (Fim da Pausa) -----------------------------------------------

Solidão. Aceitação. Solidão. Orgulho. Solidão. Vaidade. Solidão. Desespero. Memórias do Subsolo exala solidão. Todo o resto é fruto dessa solidão profunda, dessa solidão que turva a mente e transforma todos em inimigos. O inimigo é si mesmo. Uma necessidade tão grande de aceitação completamente dominada pelo orgulho e pela vaidade de colocar a si mesmo num falso pedestal para mascarar essa vontade de simplesmente pertencer. É por isso que Dostoiévski me adoece. Ele me desnuda nessas pequenezas e retira o véu da cortesia que cobre todas as superfícies. A eterna repetição do narrador do quanto é mais inteligente que todos os outros, do quanto é superior e alheio a tudo que não merece sua atenção, do quanto precisa compensar e superar a si mesmo num duelo interno do qual jamais sairá vencedor, sempre atirando para o nada enquanto é repetidamente alvejado por balas atiradas por si mesmo, pela sua mente febril e doentia.

Representações. Uma constante atuação como se não pudéssemos ser de verdade perante o outro porque isso nos diminui, nos enfraquece, nos inferioriza. Uma intranquilidade que não passa, um desespero em buscar por uma paz que não existe porque tudo parece ser apenas parte de um teatro distorcido. E não há onde se segurar. Não há uma conclusão para o que quer que se fale sobre Dostoiévski porque é na sua capacidade de gerar desconforto onde reside sua grandeza. E como ele é gigantesco. E como nós nos deparamos tão pequenos diante de representações que poderiam muito facilmente ser nossas...

Um comentário:

  1. Comemorando seu retorno. Espero que não seja ocasião única, seu blog faz falta. Como sempre, sua habilidade pra transmitir as emoções que o livro causou em você são uma delícia de ler. Cada texto seu é único por causa disso. Bem-vinda de volta.

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