Minha querida Sputnik – Haruki Murakami

13/10/2013


“Por que as pessoas têm de ser tão sós? Qual o sentido disso tudo? Milhões de pessoas neste mundo, todas ansiando, esperando que outros as satisfaçam, e contudo se isolando. Por quê? A terra foi posta aqui só para alimentar a solidão humana?”

Depois do meu terceiro livro lido do Haruki Murakami, eis que posso, de uma vez por todas, considerar-me fã do autor japonês. A capacidade criativa de Murakami é única e fantasticamente verossímil. Murakami é capaz de fazer o leitor acreditar que cair peixes do céu é algo absolutamente normal; que ver a si mesmo através de um binóculo enquanto se está preso numa roda-gigante, pode muito bem acontecer. E é por isso que gosto tanto de Murakami: ele é capaz de criar outras realidades e, o mais importante, capaz de nos fazer crer em suas palavras, por mais esdrúxulas que possam parecer a princípio. Por isso, Haruki Murakami já se tornou um de meus autores favoritos.

Com Minha querida Sputnik, a experiência não foi (muito) diferente. Neste livro, Murakami conta a história de Sumire, uma garota deslocada de 22 anos aspirante a escritora que, de repente, se vê perdidamente apaixonada por Miu, uma mulher elegante 17 anos mais velha, que esconde um misterioso acontecimento do passado que a mudou completamente. O narrador desta história, K., é o melhor amigo de Sumire e, para completar, totalmente apaixonado por ela.

Fonte. Clique na imagem para ampliar.
“Ali estava eu, em uma pequena ilha grega, partilhando uma refeição com uma bela mulher, mais velha, que eu conhecera no dia anterior. Essa mulher amava Sumire. Mão não sentia nenhum desejo sexual por ela. Sumire amava essa mulher e a desejava. Eu amava Sumire e sentia desejo sexual por ela. Sumire gostava de mim, mas não me amava, e não sentia nenhum desejo por mim. Eu sentia desejo sexual por uma mulher que permanecerá anônima. Mas não a amava.

Eis que é chegada a hora da confissão: durante a primeira parte do livro fiquei um pouco decepcionada. Pareceu-me superficial. A descrição da personalidade dos personagens não conseguiu quebrar o gelo da superfície e mergulhar até mim, como leitora, diferentemente do misto de sensações provocadas por Norwegian Wood e Kafka à beira-mar. Na segunda metade do romance, com a inserção dos elementos fantásticos característicos de Murakami, o livro melhora consideravelmente e fui capaz de perder essa sensação de superficialidade inicial, embora que com Minha querida Sputnik não tenha me conectado da mesma maneira com que me liguei aos seus outros dois romances que li.

Percebi em Minha querida Sputnik, porém, a presença de uma musicalidade maior do que nos outros livros. Consegui até ouvir certa música a tocar no cimo de uma montanha numa ilha grega e até tive a sensação de poder abrir a porta que separa o nosso lado do outro lado, só me bastava esticar um pouco o braço e girar a maçaneta. É nesse fazer crer que Murakami sempre me ganha, e nisto independe o fato de eu não ter gostado tanto do livro quanto pensei que gostaria.

Mesmo com todas as minhas observações não tão positivas, é inegável a capacidade narrativa de Murakami. Mais uma vez devorei sua história, devorei suas palavras. Minha querida Sputnik cumpre seu papel, embora, na minha humilde opinião de fã, aquém do que Murakami é sabidamente capaz de oferecer. E por isso não quero dizer que seja um livro ruim. Definitivamente não o é. Talvez apenas não tenha sido o nosso momento... 

***
“Quando a minha juventude escapuliu de mim? Pensei, de repente. Estava acabado, não estava? Ainda ontem eu estava crescendo. Huey Lewis and the News tinham algumas músicas de sucesso na época. Não fazia muito tempo. E agora, ali estava eu, dentro de um circuito fechado, girando minhas rodas. Sabendo que não chegaria a lugar nenhum, mas girando, assim mesmo. Eu tinha de. Tinha de mantê-las girando ou não conseguiria sobreviver.” (p. 89)

11 comentários:

  1. Ah, eu tava esperando por essa sua resenha. Minha opinião não é tão diferente da sua, mas como esse foi o primeiro livro do Murakami que eu li, me pegou tão de surpresa - sendo que minhas expectativas estavam bem baixas -, que eu me rendi de imediato, foi uma conexão bem pessoal que eu tive com o autor. Tendo dito isso, em retrospecto, se eu tivesse lido esse livro hoje - já conhecendo outras 5 obras do autor -, não teria sido o mesmo exatamente por causa do começo. Tá bom, Sumire é lésbica, K., encare os fatos e siga em frente - seria a minha reação. Agora quanto a fantasia começa a entrar no enredo, fica perfeito, e arriscaria dizer que chega até a resolver os problemas do início fraco. E, como você falou, se tem alguém que consegue colocar fantasia dentro de um cenário realista, é o Murakami. Não importa se é uma garota - ou um gato - desaparecendo sem deixar vestígios ou um velho que faz chover cavalinhas, soa real. Claro que, quando eu li Norwegian Wood, quase no dia seguinte, esqueci completamente desse. Mas ainda assim é um livro muito bom. (acabei fazendo uma resenha na sua resenha...)

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    1. É exatamente isso! Eu provavelmente teria tido uma conexão muito maior com o livro caso tivesse sido o meu primeiro Murakami. Mas como não foi, o começo me decepcionou um pouco porque achei bem raso. O cara passa o início todo contando o quanto ele ama a Sumire e jamais será correspondido já que a menina está perdidamente apaixonada por outra. Poxa, legal, mas e daí? Porém, finalmente, entra a fantasia e o livro deslancha. E concordo totalmente que chega a resolver os problemas do início! Se o livro tivesse essa pegada fantástica desde o início, teria sido incrível.
      E, por favor, continue fazendo resenhas nas minhas resenhas, gosto muito das suas colocações.

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  2. Oi, Taciele, eu ainda não li nada do Murakami mas tenho muita, muita curiosidade.
    Até hoje li umas três resenhas sobre o autor, e duas foram de Minha querida Sputnik (a sua é a segunda, hihi), decidi que quero começar a lê-lo por Norwegian Wood que li o início num momento 'de curiosidade' e ouvi um trecho que me deixou encantada :)

    Beigos!

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    1. Maura, também comecei por Norwegian Wood e não poderia ter iniciado de maneira melhor! Me tocou muito pessoalmente e até hoje é o meu favorito. Não poderia concordar mais com a sua escolha ♥

      Bjos!

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  3. Oi, Taci!
    Esse foi o único do Murakami que li até agora, então não sabia muito o que esperar. Gostei bastante do estilo, principalmente essa coisa de criar situações absurdas de um jeito tão bem feito que você não consegue duvidar e se joga de cabeça no mundo fantástico. Preciso ler outros logo...
    beijo

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    1. Recomendo bastante que leia os outros, Mi! O Murakami só melhora e Minha querida Sputnik tá longe de ser o melhor que ele tem a oferecer... ;)
      Bjos!

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  4. “Minha Querida Sputnik” foi meu primeiro livro do Murakami e achei ótimo. Ele tem uma escrita ágil e agradável, mesmo que a obra não chegue ao nível da tal expectativa. Enfim, é delicioso lê-lo! Bem, voltando ao livro em questão. Como foi minha primeira vez com o autor tentava encontrar alguma lógica para os acontecimentos fantásticos. Por exemplo, (SPOILER) o lance da Miu na roda-gigante. Creio que tal cena tenha sido uma forma dela esquecer o que sofreu. Mas acabei notando que não é preciso entender. Como você bem disse “Murakami é capaz de fazer o leitor acreditar que cair peixes do céu é algo absolutamente normal” ;]. Ótimas impressões! Beijos, Taciele!

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    1. Foi como eu disse ao Raphael ali em cima, se Minha querida Sputnik tivesse sido meu primeiro Murakami eu teria tido uma impressão completamente diferente da que tive. Mas como já li dois outros dele, além do Sputnik, sei que o japa pode ser bem melhor do que ele se mostrou aqui. O que não significa que o livro seja ruim, de modo algum, só não é bom como o Murakami sabidamente é capaz de ser.
      Já li com a expectativa bem baixa mesmo, porque o mesmo Raphael do comentário ali de cima já tinha me avisado que o livro não era como os outros (e do Murakami o Raphael entende haha), então por isso não houve nenhuma alta expectativa com relação a este livro em particular.
      E a narrativa do japonês é incrível! Ele realmente te leva na lábia e você nem percebe. É sensacional quando ele começa a inserir os elementos fantásticos, característica dele, na história de Minha querida Sputnik. Definitivamente é a partir desse ponto que o livro melhora infinitamente.
      Recomendo bastante Kafka à beira-mar e Norwegian Wood, você verá o Murakami dando o melhor que ele é conhecido por fazer!

      Beijos, Lulu! E muito obrigada pelo seu comentário!

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  5. terminei Minha Querida Sputinik, terceiro livro de Murakami que leio. gostei da leitura, foi rápida (chegou na parte dos documentos 1 e 2 não parei mais.) acho que foi o romance mais misterioso que já li.

    as vezes a leitura lembra bem as características de Sidney Sheldon (só eu achei isso?). só a partir da metade que as características fortes de Murakami aparecem com frequência mudando a leitura do livro completamente .

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    1. Olá, Igor!

      Realmente Minha querida Sputnik é bem rápido de se ler, e uma leitura bem agradável. Já com relação ao Sidney Sheldon eu não posso opinar, só li um livro dele e não gostei nem um pouco.
      Da metade pro final o livro melhora consideravelmente mesmo! É quando o Murakami começa a mostrar suas características fantásticas e a leitura flui ainda mais. Gostei da leitura, mesmo não o considerando o melhor dentre os Murakami que já li...

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  6. É curioso, Minha Querida Sputnik é meu livro predileto do Murakami. Foi o primeiro dele que li, também, o que pode influenciar.

    O que faz que considere mais Minha Querida Sputnik é seu final. Ao contrário de outros livros do Murakami, aqui ele conseguiu que o final resuma e finalize o tema do livro com maestria - que, afinal de contas, só a possibilidade de comunicação humana já nos tira da cama para um novo dia. Se parece algo de um filme europeu antigo, é porque foi inspirado por um, haha.

    Parabéns pelo blog! Boa leitura.

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