Um, dois e já

19/04/2015

Uma sensação, que me acomete com certa frequência, é a amarga percepção de que a vida está passando por mim como se eu fosse uma presença incorpórea e desimportante. Como se essa existência estivesse passando ao meu lado, quase como se eu a pudesse tocar, mas por mais que eu me esforce na tentativa de esticar cada vez mais o braço, é inútil. Eu continuo caminhando, continuo rumo a algum lugar que desconheço, mas não faria diferença se eu, conscientemente, decidisse me manter parada, porque tudo ao meu redor segue em uma velocidade vertiginosa que, simplesmente, não consigo acompanhar. E, por mais que eu corra, sou sempre a que fica para trás. Pensamentos como esse redemoinhavam na minha cabeça mesmo antes de ter um encontro com “Um, dois e já”, da uruguaia Inés Bortagaray e só aumentaram de intensidade quando, nas primeiras páginas, me deparo com o seguinte trecho:

“Um, dois, três, quatro, catorze postes. Quinze, vinte, trinta e seis, cinquenta e cinco postes. Os postes se movem e eu estou quieta. Avançam para trás, em direção ao que já passou. Mesmo que meu pai parasse de dirigir, se ele se negasse a acelerar, freasse de repente, esses postes e essas linhas seguiriam viagem.”

Não sei se minha relação entre uma coisa e outra faça algum sentido, ou na verdade talvez eu saiba que não faz sentido algum e só precise criar interpretações que expliquem minha identificação com postes. Curioso que Um, dois e já é o tipo de livro passível de ser lido em poucos minutos e pode ser facilmente esquecido depois, mas, contra tudo que eu esperava, nesses poucos minutos – os quais tive que estender por meses – fui confrontada a extrair dessas poucas páginas mais de mim do que uma simples e curta história de ficção. Talvez esse mix de emoções já estivesse pronto para emergir e Um, dois e já se tornou o catalisador poderoso que me permitiu colocar tudo para fora.

A história do livro em si nada tem a ver com minhas divagações. Trata de uma corriqueira viagem em família, narrada por uma personagem sem nome. A simplicidade talvez tenha sido a responsável por abrir essa caixa de Pandora que usualmente chamo de cérebro. Quando comecei a ler este livro, ainda estava agarrada com a leitura de Graça Infinita, de David Foster Wallace – que, um dia, talvez terei coragem o suficiente para falar sobre –, e uma passagem em especial da obra de DFW me trouxe imediatamente de volta a Um, dois e já. “Lhe ocorreu que se ele morresse todo mundo ainda ia existir, ir pra casa, comer, X a esposa e ir dormir.” A obviedade da coisa me pegou desprevenida e desprotegida. Mais uma vez perceber a minha insignificância diante do mundo, diante da vida, foi esmagador.

"Isso de seguir avançando é a pena.
Saber que tudo avança é a pena."

Mas tergiverso. Aliás, esse texto inteiro parece uma grande tergiversação. Talvez ele não só pareça como seja. Mas não importa. O que me importa é que o carreguei por muito tempo e agora preciso simplesmente deixá-lo ir, esfoliar a superfície que ele tanto tocou e me esvaziar para o próximo. Às vezes é impossível continuar acumulando coisas, acumulado histórias... Considerem então estas palavras como uma faxina mental e emocional necessária. Pois então que viremos a página.

7 comentários:

  1. Eu não sei o que comentar, realmente não sei. Suas palavras me acertaram, a vida parece correr.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pelo menos é bom saber que não estamos sozinhos.

      Excluir
  2. Taci,
    Peguei esse livro para ler despreocupadamente e fui arrastada para o passado. A simplicidade da narrativa é tão bonita que eu me via ali, sentada entre os irmãos no banco traseiro do carro, discutindo com eles, brincando, dividindo uma empanada. Terminei a leitura com uma sensação de nostalgia enorme. Um misto de alegria e saudade de um tempo em que as coisas eram mais simples.
    Beijo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mi, ele faz mesmo isso com a gente, né?
      E a despeito d'eu ter ignorado toda essa questão da lembrança, da nostalgia e até mesmo da saudade que a leitura desse livro remete, o sentimento também esteve sempre comigo. A simplicidade confere uma beleza tão mágica ao livro, que chega quase a ser onírico.
      Beijão, Mi!

      Excluir
  3. Como sempre, um ótimo texto!
    Também me pego pensando nessas coisas, ultimamente mais que o normal. É um pensamento verdadeiro, porém macabro, de que a nossa existência numa visão macro é praticamente insignificante. Mas ficar pensando nisso pode nos levar a uma depressão meio crônica :/

    Um Metro e Meio de Livros

    ResponderExcluir
  4. Li esse livro no inicio de Julho, sem saber nada da historia, e quando ele terminou eu fiquei meio sem reação. Acho que eu fiquei esperando que as coisas se desenvolvessem mais, mas ao mesmo tempo achei muito interessnate sobre o quanto a gente conhece bem como funcionam as relações da familia dela só por causa daquela viagem de carro. A gente consegue perceber quais ligações são mais fortes, sente o carinho entre os pais, os irmãos, enfim, apesar de ser uma história curta e sem nenhum acontecimento marcante ele diz muito sobre todos os personagens ali.
    Acho que esse é um livro que você realmente não da muito valor quando acaba de ler, mas com o passar dos dias você se pega repensando algumas coisas e absorvendo melhor a história. Gostei muito do seu post.

    Beijos

    ResponderExcluir
  5. Bom Noite!

    Sou seguidor do seu blog, muito interessante. Já coloquei você na minha

    lista de blog recomendado.

    Estou com um blog também de História chamado Ametista de Clio

    http://ametistadeclio.blogspot.com.br/

    você poderia ajudar a divulgar, meu blog, colocando também na sua lista de blog

    recomendado?


    Obrigado pela atenção

    Jairo Alves
    Historiador e Editor do Blog Ametista de Clio!

    ResponderExcluir

 
FREE BLOGGER TEMPLATE BY DESIGNER BLOGS