Viver – Yu Hua

29/06/2014

Já escrevi e reescrevi inúmeras maneiras de começar este texto, e nenhuma me pareceu ao menos razoável. Cheguei até a desistir de tentar organizar toda a bagunça que essa leitura deixou, e procurar por um método que pudesse transcrever tudo em palavras, mas até mesmo na tarefa de desistir, eu falhei. Falhei e voltei atrás porque passaram-se dias e Viver não me deixou, fixou-se nos meus pensamentos e me forçou a escrever algo aos trancos e barrancos, não me deixando nem mesmo a escolha de escolher fugir. Agora, especificamente, vejo o quanto o título grita. Viver é mais do que uma palavra, mais do que um conjunto qualquer de letras, viver é a essência. Num primeiro momento considerei o título como mais uma das ironias de Yu Hua, mas agora... Agora vejo que nenhuma outra palavra, mesmo que de significado parecido, conseguiria se equiparar a grandeza de, veja que simples, viver. É tremendo. E triste. Uma história que abrange meio século, que narra uma vida, que passa até mesmo pelas transformações políticas da China contemporânea.

Um homem, cujo trabalho é viajar pelo interior da China, coletando histórias e todo tipo de manifestações folclóricas dos povoados por onde passava. Ganhava a vida caminhando e conhecendo a vida daqueles com quem eventualmente cruzava em seu caminho. Até que esse homem, numa dessas andanças, encontra um velho trabalhando na lavoura, e sendo aquele momento uma quente tarde de verão resolve descansar à sombra de uma árvore próxima ao tal velho, e ao búfalo que o acompanhava e o ajudava na lida. E é a história de vida desse velho, que viremos a saber mais tarde chama-se Fugui, que nos é contada em Viver. É a vida de Fugui, que resolve sentar-se sob a sombra daquela mesma árvore, que conhecemos aqui.

Lá pela década de 1940, Fugui era um jovem irresponsável, filho de um senhor de terras bastante confortável financeiramente, que só sabia gastar seu tempo e dinheiro em apostas. Era um imbecil que largava a mulher grávida e a filha pequena em casa a fim de passar as noites na farra e apostando nos dados. Em suma, era um perfeito idiota. Até que alguém mais esperto, e efetivamente desonesto, tira dele toda a propriedade de sua família, deixando todos na rua do dia para a noite, obrigando-os a largar drasticamente o antigo estilo de vida boa que levavam. Pobre, sem ter onde morar, com a responsabilidade repentina de ter que cuidar e alimentar uma família... É neste momento que a vida de Fugui verdadeiramente começa, e acompanhamos tudo o que aconteceu a partir daí. Acompanhamos cinquenta anos de história. Cinquenta anos de vida.

Não vou me estender contando mais detalhes a respeito da história, exceto que desde então a vida de Fugui é uma sucessão de desgraças e tristeza. Viver é um livro extremamente triste. Mal nos recuperamos de uma queda, e as próximas páginas nos preparam outro baque. E, curiosamente, a despeito de tanta tristeza narrada em cada página, é impossível pausar a leitura até que a última palavra seja lida, até que não ajam mais páginas a serem viradas. Esse é o poder da prosa de Yu Hua: te fazer seguir em frente mesmo diante de tanta adversidade. Algo parecido com a própria vida. Sempre nos compelindo a continuar.

Eu só consigo pensar na joia que Yu Hua se transformou para mim no curto espaço de tempo que levei para concluir Viver. Foi instantâneo. Foi como um clique de certeza de que eu tinha encontrado algo grandioso e ao mesmo tempo tão simples. E tudo isso em pouco mais de duzentas páginas. A história que criou, os personagens a quem inevitavelmente nos apegamos, o pano de fundo das transformações políticas que a China sofreu durante o meio século que o livro cobre, tudo isso e muito mais, Yu Hua trata com uma objetividade que não perde nunca a carga sentimental. É uma história de vida. E com que força descomunal essa simples palavra está impregnada.

Não há nada mais que eu, no meu ridículo vocabulário, possa usar para exemplificar um pedacinho, por menor que seja, de Viver. É como se eu estivesse sempre andando em círculos sem nunca chegar a lugar algum. E este é um daqueles textos que eu não precisava escrever, eu precisava expelir. Mesmo que eu não tenha dito nada que faça jus a Viver, era necessário falar sobre ele. Era necessário falar sobre a vida.

6 comentários:

  1. Nossa, esse livro deve ser bom mesmo pra te impressionar desse jeito. Te falei que me interesso muito pela literatura chinesa, por causa do meu trabalho tenho muito contato com eles - apesar da maioria chineses - assim como os brasileiros - não saberem muito da própria literatura, até onde eu sei eles não gostam de ficção, preferem livros técnicos. É muita coragem um autor se meter a escrever sobre política por lá, especialmente quando não é pra tecer elogios. Só isso já me dá vontade de ler, mas por enquanto minha pobreza garante que vou ficar na vontade por um tempo - é muito livro nesse mundo, e esse povo nunca para de escrever mais, que absurdo.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Esse povo acha que a gente é vagabundo, que tem tempo de acompanhar os livros tudo que escrevem nesse mundo! É um absurdo mesmo! Mas Viver é muito muito bom mesmo.

      Excluir
  2. Taciele, que resenha linda! Impressões com emoções do leitor sempre são deliciosas de ler, pois mesmo que você ache que não conseguiu dizer nada, na verdade você disse muito.
    Já conversamos bastante sobre Viver e adorei ter dividido com você os sentimentos que esse livro carrega; de acompanhar o crescimento como ser humano do imbecil Fugui; de dividir um pouco a aflição que essa narrativa causa.
    Quero te agradecer novamente pela indicação. Obrigada! Amei Viver! Lindo né, Taci! ^_^ *abraça!*
    Beijos, sua linda!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Lulu, que linda!! Foi ótimo dividir essa experiência contigo, não só do livro como também do filme! Vamos repetir mais vezes, amei! <3

      Excluir
  3. Oi Taci! Como sempre né, você me fazendo ficar coçando o bolso querendo todos os livros que você resenha hahahha

    E como sempre, eu nunca tinha escutado falar de Viver, muito menos de Yu Hua. Eu tenho que confessar que eu tenho uma tara pelos orientais. Ainda não encontrei um trabalho deles que me fez ficar arrependida de ter conhecido.

    Então sempre que ouço falar de filmes/desenhos/livros de chineses, japoneses, coreanos. Eu já sinto os meus olhinhos brilharem e aquela sensação de 'PRECISO CONHECER!".

    E como sempre, mais um livro que vai para a minha lista de desejados. Ai, ai.

    Beijos!!
    Um Metro e Meio de Livros

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. hahahha vamos pensar que é tudo por uma boa causa!

      Orientais são muito bons mesmo! Todos os que conheci até agora, assim como você, só tenho coisas boas pra falar.

      É muito livro bom pra conhecer que a minha listinha já desistiu de ter um fim haha

      Beijos, Babi!!

      Excluir

 
FREE BLOGGER TEMPLATE BY DESIGNER BLOGS