Indignação – Philip Roth

13/06/2014

Ultimamente venho pensando se as coisas realmente acontecem por algum motivo ou se todo o desenrolar da vida seja apenas uma sequência de acasos. Logicamente não cheguei a conclusão alguma. Viver per se seria algo mais simples, ao menos teoricamente. Ao mesmo tempo que existir apenas e unicamente só por existir, sem que não haja uma cortina por trás disso tudo, me parece inconcebível. Esse questionamento, que não vai dar em lugar algum, surgiu depois de uma discussão a respeito do poema “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa (nunca um sobrenome coube tão bem). A poesia de Caeiro é desconcertantemente simples. Ele diz o que diz, e isso quebrou minhas pernas nessa busca por um provável significado oculto nas coisas. Mas Caeiro nada tem a ver com Philip Roth e Indignação. Talvez uma coincidência tenha me levado à Indignação, ou talvez Indignação tenha me escolhido justo agora, neste momento da minha vida, com a precisão de um bisturi. 


Curiosamente comecei este texto falando sobre significados, para agora dizer que o protagonista de Indignação, Marcus Messner, é ateu. E faz questão de deixar isso bem claro durante todo o livro. Se ele pudesse ler o parágrafo acima, diria enfaticamente e sem titubear que as coisas não tem significado místico nenhum. Indignação, diferentemente das outras obras de Philip Roth, não trata da velhice e da decadência dos últimos suspiros da vida, mas, sim, com foco na juventude de seu protagonista, com suas 18 primaveras, embora a morte seja sempre personagem frequente e presente mesmo que, por vezes, apenas sob a forma de uma sombra pairando sobre cada página.

Marcus começa logo nos contando sua vida. Conta-nos como trabalhou para o pai, um açougueiro, durante o ensino médio até ingressar numa faculdadezinha pequena, pertinho de casa. As passagens nas quais descreve o trabalho no açougue são metáforas que podem muito bem ser relacionadas à vida, isso, é claro, se você, assim como eu, for um caçador de significados. Tive uma total identificação com o Marcus enquanto narrava essa época das sua vida, afinal, filho único (checked), trabalhando no pequeno negócio da família (also checked) e estudante numa pequena faculdade perfeitamente cômoda perto de casa (barulhinho de caixa registradora). Vi minha vida na vida de Marcus, e a total simplicidade e falta de qualquer glamour no dia-a-dia é posta sob um baita refletor. Uma passagem, especificamente, mostrou mais de mim do que de Marcus, e a literatura nunca vai deixar de me abismar ao mostrar como é incrível o reconhecimento de si mesmo nas palavras do outro, independente de se tratar ou não de uma ficção. O trecho é o seguinte:


""Não sei relaxar", respondi, e, embora o dissesse em tom jocoso e encabulado, era a mais pura verdade. Estava sempre exigindo algo de mim. Sempre querendo atingir um objetivo." (p. 45)

E então a história segue... Marcus deixa sua cidade, e transfere seu curso para uma faculdade bem longe, escolhida aleatoriamente graças a um panfleto qualquer porque o destino não era importante, a ida, sim. Eu tinha de ir embora, só não sabia para onde. E ele estuda. Muito. Sempre repetindo que não quer ser mandado para a morte certa como um soldado raso na guerra da Coreia. Até que conhece Olivia, uma transferida assim como Marcus, aparentemente prestigiada, filha de médico, alguém que poderia muito bem viver a vida absolutamente confortável, dona de uma cicatriz no pulso que representa toda sua instabilidade emocional chegando a ser quase uma presença física em cada página na qual é retratada. A cicatriz, assim como o açougue, acabam por se tornarem também personagens.

A narrativa de Roth é fantástica. Em nenhum momento a leitura se arrasta, em nenhum momento a escrita de Roth é enfadonha. É simplesmente precisa. Indignação é extremamente preciso. O final não é inesperado, principalmente, se for dada a devida atenção as repetições de Marcus durante o livro e o que o motivava tanto, todavia, não significa menos por sua previsibilidade. Ao contrário, a vontade de que o esperado não aconteça é o que conduz o leitor até a última página, em direção a uma confirmação do que se suspeita.

"(...) a forma terrível e incompreensível pela qual nossas escolhas mais banais, fortuitas e até cômicas conduzem a resultados tão desproporcionais." Eu, definitivamente, vou continuar a buscar por significados. 

8 comentários:

  1. São resenhas como essa que mostram como você escreve bem e poderia escrever, sem problemas, outros tipos de texto. Só esse primeiro parágrafo já me prendeu, o jeito que você levou o livro para o lado pessoal sem esquecer de tratar da história separadamente. Excelente resenha e eu preciso ler Roth agora - o que eu não vou fazer tão cedo, porque não tenho nada dele aqui e nem tenho dinheiro pra comprar.

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    1. Já disse e repito, obrigada!! Tanto pelo elogio e, principalmente, por me motivar a escrever!

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  2. Taciele, que resenha incrível! *_*
    Engraçado, sempre é uma surpresa, e causa certo estranhamento, quando nos vemos naquelas palavras, naquelas personagens. E o mais incrível disso tudo é quando essa identificação chega na hora certa ajudando nas dúvidas pessoais.
    Nunca li Philip Roth, mas tenho A Humilhação, já leu?
    Agora a comemoração: Taciele voltou! \o/
    Beijão!

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    1. Lulu, obrigada!!!
      Curioso isso, não? Parece realmente que tudo chega na hora certa, na hora em que precisamos. Já li A Humilhação, sim, Lulu, inclusive escrevi um breve comentário sobre aqui no blog. Acho um dos livros mais fracos do Roth, mas ainda vale a leitura.
      Voltei e espero que desta vez para ficar!
      Beijão!!

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  3. Sou uma eterna buscadora de significados, em tudo.

    E o que eu mais gosto das suas resenhas, Taci, é que elas sempre me levam ao final. Por mais idiota que isso possa parecer, tem umas resenhas por aí repetitivas que sempre acabam me dando preguiça de continuar a ler até o final. Muitas vezes até acabo fazendo leitura dinâmica, triste confessar isso. Mas é verdade.

    O melhor de tudo são os títulos, autores e histórias bem diferentes que você traz e que eu sempre, SEMPRE me identifico (como também senti o reconhecimento de mim mesma no trecho que você transcreveu).

    Então, continue trazendo resenhas ;)

    Beijos!
    Um Metro e Meio de Livros

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    1. Babi, fico muito feliz em saber disso! Eu sempre coloco um pouco de mim nas palavras que escrevo por aqui, e é incrível ler comentários como os seus. Isso me motiva a continuar e continuar feliz da vida, portanto, muito obrigada!!
      Beijos!

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  4. Texto absurdamente perfeito para matar a saudade!
    Eu não sou do tipo que sai procurando significados nas coisas, mas acredito que as coisas acontecem no momento exato em que têm que acontecer. E, veja, só, comprei esse livro hoje cedo e agora dou de cara com sua resenha. Coincidência? Destino? Não importa. Tenho certeza que será uma leitura marcante e que eu também me reconhecerei nas palavras do autor.
    beijo!

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    1. Mi, que bom ver você de volta e muitíssimo obrigada!!
      Que incrível! É exatamente o que você e a Lulu disseram: as coisas chegam na hora certa, acontecem na hora certa. Espero que Indignação também tenha chegado no momento certo até suas mãos!
      Beijão, Mi!

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