"Que o Homem labute, sofra, aprenda, esqueça e volte."

28/05/2013

Pegando carona na propaganda que exagera em tratar Jovens de um novo tempo, despertai!, de Kenzaburo Oe, como um "livro de definições", resolvi então tratar de defini-lo. E vou fazê-lo em duas palavras: puro sentimento. É o que ele é. E nenhuma definição menos abstrata poderia se mostrar correta. Este é um livro que desperta um leque de emoções diferentes que cavam igualmente fundo na alma da gente. 

Num misto de autobiografia, conto e ensaio, Oe se põe narrador/protagonista em sua própria história. Ao voltar de uma viagem, a trabalho, especialmente longa, fica sabendo que seu primogênito excepcional Iiyo - cujo nome verdadeiro é Hikari - teve uma crise e se encontra violento, provocando no resto da família uma sensação de impotência e até de medo em relação ao filho especial. Retornando ao seio familiar e ao seu primogênito, Oe "retoma" o projeto de escrever um "livro de definições de todas as coisas do mundo" para o filho.

Digo "retoma", entre aspas, porque ele nunca de fato começou a escrever tal livro, como ele mesmo diz. Ele apenas acalentou a ideia, a tateou aqui e acolá, mas sempre superficialmente. Por isso, logo no início, comentei que toda a propaganda exagerava em focar apenas numa característica que é totalmente secundária na história que o livro conta.

Dito isso, é essa crise grave sofrida pelo Iiyo - vou tratá-lo pelo nome que o Oe usou - que o motivou a procurar uma maior aproximação com o filho. Uma forma forma que o pai Kenzaburo Oe usou para poder penetrar a couraça que Iiyo construiu ao redor de si; uma forma de conhecer seus sentimentos, de conhecer a dor que o filho sentia - e não falo aqui apenas de dor física - e que com um olhar conseguia expressá-la em sua totalidade mais do que quaisquer palavras poderiam fazer. E é essa torrente invisível de sentimentos que nos faz submergir num estado de emoção pura.


Como se não bastasse, Oe ainda recheia todo o livro com poemas épicos de William Blake. Certamente daria para juntar meus pedaços depois dessa leitura. Impossível não se emocionar profundamente com os poemas de Blake e com as interpretações feitas por Oe baseadas nos acontecimentos da sua vida. Acredito que até um leitor estátua saia desse livro um pouco menos pedra.

E qual não foi minha surpresa ao me deparar com uma obra tão densa, tão profunda, num livrinho de apenas 300 páginas que nem através do título sensacional consegue dar a mínima mostra de quão grande é. É difícil ter uma ideia formada do que o livro se propõe lendo apenas sua sinopse (e menos ainda se formos levar em consideração as reviews como o típico Ctrl + C, Ctrl + V), mas, ainda assim, ao lê-lo, nos damos conta que o que está impregnado em suas páginas não poderia ser imaginado e muito menos conhecido a não ser por uma experiência própria, de leitura. Um livro que afeita a todos que se dispuserem a mergulhar nessa história de Kenzaburo Oe. Em maior grau em uns do que em outros, mas jamais passando de forma indiferente.

A narrativa de Oe, por vezes muito simples (sem deixar de ser um tanto poética), é algo como se estivéssemos diante de um homem contando alguns fatos de sua vida, contando certos acontecimentos do dia-a-dia, alguns felizes, outros tristes e agoniantes (como o rapto de Iiyo e o motivo cretino por trás do ocorrido), porém, todos, com uma extrema carga sentimental. Kenzaburo Oe conseguiu através de versos Blake dar proporções enormes a sentimentos que por si só já eram muito intensos. A narrativa simples é uma espécie de desafogo, um emergir, de toda essa torrente de emoções às quais Oe nos faz passar e, ainda assim, não poucas foram as vezes em que precisei parar a leitura e respirar um pouco do ar de fora dessa narrativa.

Vale não só uma como várias releituras. Acredito até que seu mérito esteja no reler e no absorver cada vez mais a história aqui contada. Os meus olhos de leitora ávida não conseguiram se moldar de imediato ao modo diferente usado por Kenzaburo Oe de narrar, mudando de gênero sempre de maneira um tanto  brusca. Mas aí a culpa é inteiramente minha, culpa esta que pretendo redimir relendo-o futuramente, mas não mais com olhos curiosos, mas sim com olhos de alguém que quer, uma vez mais, sentir tudo isso novamente.

****

"Iiyo veio ao mundo, mas não posso afirmar que dele obteve muito pelo poder da razão, nem que emprestará sua força para a construção deste mundo. Mas, de acordo com Blake, a força da razão conduz o ser humano ao erro, e o próprio mundo é produto do erro. Embora viva neste mundo, Iiyo não teve a força espiritual conspurcada pela experiência. Iiyo preserva a força da inocência. E chegará o dia em que ele e eu iremos para dentro da "árvore da chuva", por dentro da "árvore da chuva" e para além da "árvore da chuva"; e embora juntos, para lá retornaremos, sós e em perfeita liberdade. E quem seria capaz de afirmar que, tanto para Iiyo quanto para mim, esse processo de vida e morte nada significou?" (páginas 314-15)

2 comentários:

  1. Taci

    Parabéns pela resenha. Excelente!
    Eu já estava com vontade de ler esse livro, mas depois da sua resenha preciso para ontem. O tema me interessa muito, ainda com citações de Blake. Imperdível.

    Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Flávia, muitíssimo obrigada!

      Pois, leia sim, é sensacional. Antes eu me perguntava o porquê de Kenzaburo Oe ter sido agraciado com um Nobel... Bem, agora entendo perfeitamente. Beijos

      Excluir

 
FREE BLOGGER TEMPLATE BY DESIGNER BLOGS