1984 ─ George Orwell

20/07/2013

Impotência, opressão, injustiça. São apenas alguns dos sentimentos que me preencheram e me transbordaram, durante e após a leitura de 1984. Uma distopia desesperadoramente real e atual em seu âmago, em seu Socing. Eu não tenho palavras para descrever o quão incisivo e verdadeiro foi George Orwell, seu senso político extremamente aguçado e já conhecido por mim desde A Revolução dos Bichos. Ainda assim, que choque, que soco no estômago foi ler 1984 e constatar mais semelhanças do que diferenças com o mundo em que nós vivemos, no ano em que estamos.

O conceito de lavagem cerebral toma outra forma aqui, algo quase literal. Se você não se encaixa ao modelo de “pessoa” esperado pelo Partido você está doente, com defeito, e precisa ser consertado. Pus o “pessoa” entre aspas porque a grande massa subjugada pelo Partido não é mais do que gado. São proibidas até de terem uma personalidade, de pensar. O idioma criado pelo Partido, a Novafala, quer inclusive que faltem até palavras para moldar os pensamentos que se possam ter contra o Grande Irmão (que é a imagem do Partido. Outdoors de um rosto com um metro de largura que estão em todos os lugares olhando para você).

“Você não vê que a verdadeira finalidade da Novafala é estreitar o âmbito do pensamento? No fim teremos tornado o pensamento-crime literalmente impossível, já que não haverá palavras para expressá-lo. Todo conceito de que pudermos necessitar será expresso por apenas uma palavra, com significado rigidamente definido, e todos os seus significados subsidiários serão eliminados e esquecidos. (...) Menos e menos palavras a cada ano que passa, e a consciência com um alcance cada vez menor.” (p.68-9)

Nosso protagonista, Winston Smith, é um desses defeituosos. Não consegue condicionar seu próprio cérebro contra si mesmo e a favor do Partido. Sabe que aquele mundo está errado, e não consegue entender porque ninguém é capaz de ver a lama em que estão atolados; lama essa que pode muito bem ser traduzida por Partido.

O mundo de 1984 é dividido em três grandes Estados: a Oceânia, a Eurásia e a Lestásia. Todos vivem em uma guerra constante, sem começo, meio ou a perspectiva de um fim. Quando a Oceânia resolve se aliar a Eurásia e guerrear contra a Lestásia, o Partido condiciona todos a crer que durante todo o tempo a guerra sempre foi contra a Lestásia; que nunca houve outro inimigo, que jamais houve um tempo em que tinha sido diferente, que essa guerra talvez não tenha existido. Mas quando o Partido se põe aliado da Lestásia e o inimigo da vez é a Eurásia, faz o mesmo e ainda assim não há uma objeção por parte da população. O passado não existe.



“A história não passava de um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário” (p.54)

O Partido detém de todos os meios para mudar o passado a fim de seus próprios objetivos, e ninguém ousa dizer que o passado aconteceu de forma diferente do que a dita pelo Partido. E aqui entra a total lavagem cerebral, a total drenagem de todo e qualquer resquício de personalidade que alguém possa ter. E quando isso não funciona... Bem, o Partido não quer nenhuma nódoa, e se você não acredita verdadeiramente no que ele prega você não é necessário.


1984 é sensacional em todos os sentidos. Esta não é uma resenha, tampouco quero contar sobre o livro. Para que cada um conheça 1984, sua história, suas minúcias, é necessário que leia, e que descubra por si mesmo. Se não for desse modo, não é de modo algum. Eu só consigo pensar em como o ser humano pode se adaptar a situações tão extremas, como consegue toldar a si próprio e isso nem em favor de si mesmo. Eu diria que é impossível ler 1984 e continuar com a mesma visão de mundo, com o mesmo pensamento diante do sistema e não se perguntar: “O que será do futuro?”


*****


““Como um homem pode afirmar seu poder sobre outro, Winston?”. 
Winston pensou. “Fazendo-o sofrer”, respondeu. 
“Exatamente. Fazendo-o sofrer. Obediência não basta. Se ele não sofrer, como você pode ter certeza de que obedecerá à sua vontade e não à dele próprio? Poder é infligir dor e humilhação. Poder é estraçalhar a mente humana e depois juntar outra vez os pedaços, dando-lhes a forma que você quiser. E então? Está começando a ver que tipo de mundo estamos criando? Exatamente o oposto das tolas utopias hedonistas imaginadas pelos velhos reformadores. Um mundo de medo e traição e tormento, um mundo em que um pisoteia o outro, um mundo que se torna mais e não menos cruel à medida que evolui. O progresso, no nosso mundo, será o progresso da dor. As velhas civilizações diziam basear-se no amor ou na justiça. A nossa se baseia no ódio. No nosso mundo as únicas emoções serão o medo, a ira, o triunfo e a autocomiseração. Tudo o mais será destruído tudo. Já estamos destruindo os hábitos de pensamento que sobreviveram da época anterior à Revolução. Cortamos os vínculos entre pai e filho, entre homem e homem, e entre homem e mulher. Ninguém mais se atreve a confiar na mulher ou no filho ou no amigo. Mas no futuro já não haverá esposas ou amigos, e as crianças serão separadas das mães no momento do nascimento, assim como se tiram os ovos das galinhas. O instinto sexual será erradicado. A procriação será uma formalidade anual, como a renovação do carnê de racionamento. Aboliremos o orgasmo. Nossos neurologistas já estão trabalhando nisso. A única lealdade será para com o Partido. O único amor será o amor ao Grande Irmão. O único riso será o de triunfo sobre o inimigo derrotado. Não haverá arte, nem literatura, nem ciência. Quando formos onipotentes, já não precisaremos da ciência. Não haverá distinção entre beleza e feiura. Não haverá curiosidade, nem deleite com o processo da vida. Todos os prazeres serão eliminados. Mas sempre não se esqueça disto, Winston , sempre haverá a embriaguez do poder, crescendo constantemente e se tornando cada vez mais sutil. Sempre, a cada momento, haverá a excitação da vitória, a sensação de pisotear o inimigo indefeso. Se você quer formar uma imagem do futuro, imagine uma bota pisoteando um rosto humano para sempre.”” (p. 311-2)

***** 

13 comentários:

  1. Puxa Taci, que resenha fantástica! Eu li esse livro mais jovem, mas preciso reler. Assim como reli Admirável Mundo Novo ano passado e me surpreendi bastante, acho que acontecerá o mesmo com esse.
    Beijo enorme!

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    1. Tati, obrigada! Já eu preciso ler Admirável Mundo Novo, fiquei bem interessada no gênero agora que li e adorei 1984. Beijos!! =D

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  2. Esse livro é muito bom e muito atual! É só parar pra pensar na descoberta que o governo norte-americano estava agindo como o Grande Big Brothers em cima de todos os países.

    Eu não gosto muito de distopia, não. Mas George Orwell é rei!

    Beijos!
    Barbara
    www.ummetroemeiodelivros.com

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    1. Pois é! Vi que o livro virou um sucesso de vendas quando essa história dos EUA veio à tona, e foi até um dos motivos que me motivou a lê-lo de uma vez.

      Eu também tenho um pé atrás com distopias, mas 1984 é realmente sensacional! Beijos!! =D

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  3. Não é à toa que esse livro é atemporal, né? Ainda está na minha pilha de leitura, mas pretendo corrigir essa falha e lê-lo o quanto antes. Imagino que os sentimentos despertados pelo "Admirável Mundo Novo" reapareçam com "1984": admiração, identificação, assombro, tristeza, raiva... Veremos.
    bjo

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    1. Realmente para um livro publicado em 1949 sobre um futuro relativamente distante (o ano de 1984) e, ainda assim, conter muitas semelhanças da nossa sociedade atual, é um feito e tanto!

      No meu caso, a falha a ser corrigida é a respeito de Admirável Mundo Novo. Também imagino que vou reviver os sentimentos que 1984 me despertou, me parecem ser dois livros muito semelhantes. Beijos!! =D

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  4. Oi querida!
    Ainda nao li este livro, mas esta na minha lista
    Adorei sua visita la no blog
    Adorei A Rainha Branca e os Reis Malditos, são otimos!!!!! Leia, vc vai gostar!
    Bjks mil e uma otima semana

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    1. Oi Claudia! Que bom vê-la por aqui! =)

      Os Reis Malditos começo ainda este ano, me parece bom demais para continuar passando batido! Beijos e uma ótima semana pra você também! =D

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  5. Boa noite, leitora nova!

    Esse é exatamente o tipo de livro que eu estava procurando. Algo com caráter político e social, não apenas mais uma historinha. Esse é o tipo de livro que deveria ser dado de graça em todas as escolas, que deveria ter leitura obrigatória (mas, por motivos óbvios, não é).

    Fiquei realmente entusiasmada para o ler. Só tenho uma pequena dúvida: você conseguiu o ler de uma só vez ou teve que pular algumas partes, aquela velha história do livro que em alguma hora se torna massante? Tentei ler O Diário de Berlim Ocupada e não foi lá muito fácil.

    Ah, adorei o nível do seu blog. Os livros que você avalia aqui não são infantis mas também não são tão pesados, em sua maioria. Está de parabéns!

    Te adicionei aos favoritos no Chrome, muito embora já esteja te seguindo, rs.

    Espero ansiosa pelo próximo post!

    Mariana Machado
    http://lentesdeleitura.blogspot.com.br/

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    1. Boa noite, Mariana! Seja muitíssimo bem-vinda!

      Respondendo sua pergunta, 1984 tem umas partes um pouco mais lentas, logo no início, mas nada que atrapalhe a leitura. Eu o li em 3 dias porque não conseguia parar. As partes dois e três são sensacionais, praticamente não se percebe o tanto que se leu!

      Fico feliz de verdade que você tenha gostado daqui, é sinal de que venho seguindo o caminho certo e agradeço imensamente! Já passei a te seguir também e, mais uma vez, muito obrigada! Beijos!! =D

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  6. Louca para ler esse livro. Ele está na minha lista de desejados!! hehe

    Enfim, estou passando para avisar que te indiquei em um selinho...
    http://cafecomlivroo.blogspot.com.br/2013/07/selinho-1-versatile-blogger-award.html

    Beijos
    http://cafecomlivroo.blogspot.com.br

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  7. Este é um dos livros mais fantásticos que já li na vida! Livro de cabeceira e obrigatório para qualquer ser humano!

    Ótima resenha!
    ;)

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    1. Concordo e faço coro: um dos livros mais fantásticos que já li na vida! Obrigada, Dayan. =)

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